João Bosco e Vínícius definem ‘A festa’ como trabalho mais autoral

Cristiane Bomfim

19 Outubro 2012 | 14h37

POR CRISTIANE BOMFIM
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No final de setembro João Bosco e Vinícius lançaram o CD e DVD A festa, gravado em abril na sala de uma casa no interior paulista. O álbum, que é o oitavo de uma carreira de 19 anos, tem 14 faixas. Colo colo, cantada em parceria com Xandy Avião (do grupo Aviões do Forró) foi a primeira a ser tocada nas rádios e ganhou até um clipe. A faixa foi composta pela dupla em parceria com Pedro Henrique.

Considerado pela dupla um trabalho que resgata a identidade da dupla, cinco faixas escolhidas para o repertório tiveram a colaboração de João Bosco e Vinícius na hora da composição: Colo Colo, Fim de semana, Descontrolar, Em direção ao sol e Tão distante, tão perto. “Não adianta gravar um DVD na Torre Eiffel se o repertório não for bom”, diz João Bosco. Seis meses antes da gravação, em uma reunião, eles perceberam que tinham apenas seis músicas inéditas. “Isso foi ótimo porque eu e o Vinícius decidimos então compor”, completa João. Química, a segunda música de trabalho da dupla, já está tocando nas rádios. Leia entrevista completa sobre a carreira e o DVD A festa:

Por que escolher o interior de uma casa para gravar um DVD?
João Bosco: Até esse projeto, tínhamos feitos três DVDs em locais grandes, em shows. E seria um desafio mostrar para o público a intimidade da dupla, já que temos quase 20 anos de carreira. E escolhemos a casa do Euler Coelho (empresário da dupla) porque é onde recebemos nossos amigos.

A chuva atrapalhou?
João Bosco: A chuva atrapalhou porque iríamos usar a parte externa da casa também. Mas ficou melhor que a encomenda. O povo ficou juntinho e o DVD ficou mais intimista. Queríamos gravar um pouquinho em outros ambientes, como a churrasqueira. Quando começou a chover, passamos todo mundo para dentro,e ficamos preocupados com o espaço físico, mas ficou mais intimista.

Por que chamar o grupo Aviões do Forró para participar?
João Bosco: Conhecemos o trabalho deles em 2009, quando gravamos Chora, me liga. Eles foram a primeira banda a divulgar nossa música no norte e nordeste do País. Quando fomos fazer turnê lá, vimos o sucesso que eles eram. Viramos fãs e convidamos eles para participarem do DVD. Colo colo é a cara do Aviões do Forró.

Sertanejo dá pra misturar?
João Bosco: Tudo que chama atenção para a música sertaneja é importante. A obra do Tião Carreiro está fazendo mais sucesso hoje que antes porque as pessoas querem saber o que é a música sertaneja. Essa mistura acaba mostrando o estilo para quem não está acostumado.

Mas essa mistura não acaba com a identidade do estilo?
João Bosco: Quem faz a identidade é o artista. A nossa verdade é fazer músicas românticas. Perde a identidade do sertanejo de raiz. E o sertanejo de 1990 para cá (com Zezé e Chitão) já sofria inovações

Com quem vocês gostariam de gravar uma música?
João Bosco: Temos vontade de gravar com Chrystian e Ralf. É uma dupla que influenciou muito nosso trabalho pelo projeto. Gosto demais de Prazer por prazer. Eu e o Vinícus sempre procuramos pontos positivos desses artistas que crescemos ouvindo.

A escolha do repertorio durou um ano. Por que tanto tempo?
João Bosco: Quando termina um projeto, nós já começamos a pensar no outro. Não adianta gravar um DVD na Torre Eiffel se não tiver um repertório bom. E nós priorizamos muito o repertório. Ficamos um ano ouvindo música e faltando cinco ou seis meses para a gravação do DVD, fizemos uma reunião com o produtor e vimos que só tínhamos seis músicas. Isso foi muito bom porque procuramos o que estava faltando para o nosso repertório. Gostamos de variar. E decidimos que iríamos compor. Nós sempre escrevemos, mas tendo o Euler como compositor, deixávamos as nossas letras de lado. Além disso, a maioria das músicas que recebemos estava influenciada pelo mercado e não fazem parte do nosso estilo.
Vinícius: Em termos de período de elaboração de repertório, eu acho que foi o projeto onde nós começamos a correr atrás de músicas mais cedo. A gente se preocupou com a qualidade do repertório. Acho que em termos de ritmos ele está bem diversificado. Acho que tem boas vaneras, boas baladas, músicas românticas. Acho que as regravações também ficaram muito boas. Trouxemos um elemento que até então eu e o João tínhamos muita vontade de colocar no arranjo, que é a arpa paraguaia. Temos essa identificação, já que somos do Mato Grosso do Sul e estamos na divisa com o Paraguai. Isso é muito vivo na gente. O repertório está muito bom. Não sei se vamos conseguir explorar tudo de bom que tem este projeto. Porque muitas vezes, muitas músicas boas vão para o latão do lixo sem tempo de serem trabalhadas.

Essa pressa de lançar álbuns – tem que ser um por ano – não atrapalha?
Vinicius: Musicalmente atrapalha um pouco. Acho que tem duas coisas a serem consideradas: aposição do mercado e a velocidade com que o público esta assimilando essas novidades. Antigamente, tínhamos a divulgação no rádio e na TV. Hoje, com a internet, tudo é muito rápido.

Qual é o estilo de vocês?
João Bosco: Nós gravamos músicas populares romantizadas, como é o caso de Colo Colo. Músicas de duplo sentido não são a nossa cara, mas não temos nada contra.

Este projeto é mais a cara de vocês?
João Bosco: Participamos muito deste projeto. Da elaboração do repertório, dos arranjos junto com Dudu Borges, da decoração da casa, edição das imagens. Ouvimos a mixagem e a masterização. Enfim, é o nosso trabalho mais autoral.

São 19 anos de dupla. Como você avalia a carreira?
João Bosco: Muita ralação, muita emoção, satisfação. E eu não troco a minha carreira pela carreira de nenhum outro artista. Passaria por tudo de novo. Não sei dizer se é a melhor fase. O reconhecimento com Chora, me liga foi uma mudança muito grande. Nós tínhamos um trabalho reconhecido, mas não tanto. Essa música abriu portas. É difícil superar o álbum Curtição (que tem sucessos como Meu mundo gira, Coração só vê você e Chora, me liga), mas o artista tem que se superar sempre. Nós acreditamos no repertório deste projeto, mas não temos como falar se vai ser sucesso ou não.

O que vocês não fazem pelos fãs?
João Bosco: Na questão musical fazemos tudo. O artista quando começa a fazer um som que só agrada ele sem pensar no público se perde. Por nós, gravaríamos as nossas influências, o sertanejo. Mas se fizermos isso estaríamos fora do mercado…

O público não está nivelando por baixo?
João Bosco: Os jovens vivem do modismo, mas você pode participar do modismo fazendo uma coisa que seja a sua verdade. Eu o Vinícius nunca nos envolvemos em polêmicas. Colo Colo é uma música comercial, é popular e não fala de pegação. Tem a nossa cara. Esse disco está bem para trás na história de João Bosco e Vinicius. É bem parecido com Curtição em termos de arranjo e letras.