Twin Peaks decola?

Twin Peaks decola?

Marcelo Rubens Paiva

08 Junho 2017 | 11h31

 

Twin Peaks teve duas temporadas no começo de 1990.

Ambas passaram no horário nobre, TV aberta, depois do Fantástico, domingo, quando o show da vida acabava pontualmente às 22h, colado nos gols da rodada.


Não havia internet, TV a cabo, celulares, e a grande novidade tecnologia, que nos deixava de boca aberta, era o fax.

Me lembro de que estreou num inverno gelado.

Restavam os livros, as fitas de filmes alugadas, e os seis canais de TV aberta.

A audiência era estrondosa.

Na semana, só se falava dela.

Apesar de toques de realismo fantástico, uma marca do seu criador, David Lynch, que lançou uma lista infindável de personagens até então estranhos na TV, como o protagonista, o anti-herói agente Cooper, a trama “quem matou Laura Palmer”, a linda estudante popular da escola, seduzia a grande audiência.

Estranhos, vírgula.

Vivíamos, especialmente no Brasil, a era dos personagens bizarros, influenciados, claro, pela literatura latino-americana de Garcia Márquez, e pela teledramaturgia de Dias Gomes e Bráulio Pedrosa: o padre que voa; a mulher que explode de tanto comer; o coveiro que expele formigas pelo nariz…

Saramandaia, O Bofe, Bem Amado foram algumas das novelas que desenharam uma dramaturgia sem heróis, surrealista, marca de Dias Gomes [que explodiu na dramaturgia com a peça O Berço do Herói, que a ditadura censurou e deu numa mutilada novela Roque Santeiro].

Primeira temporada de Twin Peaks foi comandada por Lynch.

Na segunda, ele brigou com seu co-autor, Mark Frost, que, erroneamente, queria revelar o assassinato de Laura Palmer, trama contestada por Lynch.

Sem Lynch e com executivos da TV nos comandos, a série perdeu no encanto e flopou.

É revista agora, na era do streaming, com a dupla ressuscitando personagens das primeiras temporadas em novas tramas e locações, como Nova York, Las Vegas.

Mas é um Frost intimidado pela certeza de ter errado 25 anos atrás.

E um Lynch cada vez mais experimental, incompreensível, simbólico, amado ainda, mas sem encantar o grande público, com suas tramas de muitos planos alternados, delírio e realidade, vida e morte, consciente e inconsciente, em que não se sabe se personagens estão eternamente mergulhados num sonho labiríntico, ou se a realidade pode ser vista como obra do surreal.

Estamos já no quinto episódio de Twin Peaks 2017.

Ainda não dá para entender o que se passa.

Na era nas opções (Netflix, HBO, Play, TVs pagas, Apple TV, Amazon, Youtube, em que as séries são os carros chefes da programação), até onde vai a paciência e a boa vontade do disperso e exigente espectador do milênio?

Twin Peaks 2017 ainda parece um hidroavião experimental taxiando pelas águas da cidadezinha fria americana, fronteira com o Canadá.

Decola?

Tem gente desembarcando.

ps> O New York Times, da montagem acima, traz um guia para retomar o que aconteceu nas primeiras temporadas, que ajuda a entender a de agora: https://www.nytimes.com/2017/04/27/watching/twin-peaks-how-to-watch-guide.html