Quando encontro vira paixão que vira amor?

Quando encontro vira paixão que vira amor?

Marcelo Rubens Paiva

18 Dezembro 2009 | 02h14

Quando você começa a sair com uma pessoa, os sentidos ficam aguçados, a linguagem corporal é observada: tique, jeito de andar, se sentar, pedir comida, cumprimentar o garçom, comer, entregar a chave para o manobrista, dirigir, respeitar a faixa de pedestre, vagas para deficientes e idosos, dar passagem e o pisca.

Checam-se gostos pessoais, figurino, lustre do sapato, tamanho do salto, autenticidade do relógio, joias e CDs do carro, marca do celular e o toque. Uma relação pode não dar certo se o toque de chamada for estridentemente musical ou o hino do time.

Os mais diretos perguntam logo no primeiro encontro quais as doenças recorrentes na família.

No fundo, desenvolve-se o instinto mais fundamental da espécie: procurarmos e selecionarmos o saudável parceiro reprodutor.


Como a civilização avançou e instituiu rituais de acasalamento, nos perguntamos então se está ali a mulher [ou o homem] da nossa vida, como quem seremos fiéis na alegria e na tristeza, na saúde e na doença etc.

Muitos encontros são marcados por e-mails ou torpedos. E são baixas as chances de eles se realizarem, se uma das partes solta:

“Vou estar passando daqui a pouco.”
“Vamos marcar para meio-dia e meio?”
“Pode ser amanhã? A tempos que naum me sinto tão mau. Deve ser o calor…”
“Vamos se falar amanhã então.”

Neste caso, como são dois semianalfabetos tecnológicos, pode até dar certo.

Se a etapa da comunicação for vencida, algumas frases ditas entre o couvert e a sobremesa são suficientes para indicar que talvez ali, tomando aquele vinho caro, todo efusivo, não esteja o reprodutor [ou a reprodutriz] ideal:

“Tocantes as declarações de Ahmadinejad. Fala a verdade, alguém tem provas do holocausto? Isso é exagero dos judeus. Não tenho preconceitos. Minha dermo é judia. Se eu tivesse, nem deixava ela encostar em mim. Os melhores médicos são judeus. Fazer o quê?”

“Pra mim pagar essa conta, vai pesar no orçamento. Bebe este vinho com gosto, curtindo cada gota!”

“Saudades do Maluf. O cara mudou a cidade. Minhocão, Marginais. São Paulo ficou bem mais bonita.”

“A nível de governo, na época do Quércia não tinha essa violência. Tem que colocar a Rota nas ruas! Rota, Exército, Marinha, Aeronáutica e a Guarda Florestal! Só tem animal solto por aí.”

“Bom mesmo era na época da ditadura. Não tinha corrupção, o Brasil crescia, não tinha nada de sem-terra, sem-teto… Tudo mundo tinha alguma coisa.”

“Uma vez fiz sexo com o time de futebol da faculdade. E não era o de salão. Nem estava bêbada.”

“Desde que esses nordestinos vieram pra São Paulo, a cidade nunca mais foi a mesma.”

“Tinham que jogar uma bomba em cada favela carioca, antes dos Jogos Olímpicos.”

“Que ator é o Van Damme. Fora que é o mó gato. Ficaria com ele fácil. Só perde para o Steven Seagal, que é um ator mais denso.”

“Quer ir lá em casa? Não tenho bebida. Mas chegou um carregamento da Colômbia. Purinha. Galera até soltou fogos.”

“Eu transo sem camisinha. Mas tomo cuidado, transo com quem conheço. Eu confio nas minhas transas. Só quando vou no Carnaval pro sul da Bahia, aí, sei lá. Ah, pra que encanar com isso? Conhece Itabuna?”

“O melhor do Paulo Coelho é Veronika Decide Morrer, leu? O final é chocante. Ela não morre! Hi, contei o final…”

“Tenho piercing em cada orelha, na língua, no pescoço, nos bicos dos seios, no umbigo e… Terá que descobrir os outros. Tenho mais sete.”

“Na minha casa ou na sua? Vou avisando que durmo na cama com meus quatro cachorrinhos. Ah, somos inseparáveis. São pit bull, mas são de confiança e não têm pulgas. Tudo bem, nem gostam de dormir de conchinha.”

“Eu só viajo de primeira classe. Acho a comida da executiva um lixo. E o aperto?”

“Minha apneia do sono é grave, mas convivo numa boa com ela. A da minha avó é pior. Ela dorme na cama ao lado. E é sonâmbula. Doidona. Quer ir lá conhecer? Mas precisamos levar uma garrafa de Bell’s. Ela só dorme com uísque nacional.”

“Teatro só vou em Nova York. Vi Cats mais de vinte vezes. Acho que dá última finalmente entendi o final. Mudou a minha vida.”

“Mais gata que a Ivete só a Cláudia Leite. E como cantam…”

“Meu sonho era entrar para o BBB, todo ano me inscrevo. Mas se rolar um teste pro programa A Fazenda também pego.”

“Meu pai que é esperto, trabalhou com o PC Farias, Daniel Dantas, Celso Pitta, Marcos Valério. Cresci com esses caras lá em casa, jogando truco. Agora, meu pai quer abrir uma offshore comigo no Caribe. Sou um laranja dele desde pequenininho. E ano que vem tem eleições.”

“O filme da minha vida é O Guarda-Costas, com Whitney Houston e Kevin Costner. Aliás, o disco dela não sai do meu carro. Tô louco pra comprar o DVD em que ela canta com a Mariah Carey. Animal, né? Adoro aquela. Canta comigo I’ll Always Love You…”

Entro em férias. Em janeiro retomo. Lembranças a todos. Boas festas.

Em 2010 tem mais.