Quando a emissora faz do crime um show

Quando a emissora faz do crime um show

Marcelo Rubens Paiva

11 Abril 2017 | 13h16

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A resolução do caso de um assédio físico e moral no BBB foi, absurdamente, encaixada nas regras do show real, no horário propício e, mais surpreendente ainda, transmitida ao vivo.

Depois que forças externas, uma delegacia da mulher, interveio, de forma a exibir as mazelas de um personagem, sob a “ética” da transparência, para milhões de pessoas.

O resultado foi uma felicidade geral: o público aplaudiu, os críticos apoiaram e o programa bateu recorde de audiência [foi sintonizado por 49,3% dos televisores ligados, arrastando toda programação para cima].

A emissora, de vilã, afetada por demorar a atuar numa denúncia de assédio do galã da novela noturna semana antes, passa uma boa imagem de si.

Diz que foi justa, que existem regras, que a lei está acima de tudo.

Parece sinopse de um longa sobre produtores ambiciosos nos bastidores de uma empresa interessada apenas na audiência [lucro].

Mas o BBB sempre foi um caso de programa que humilha pessoas comuns em busca da fama&grana.

É preciso ter estômago para assistir.

Algumas provas lembram técnicas de tortura, como ficar horas em pé atrás de uma compensação, um presente, um prêmio, ou apertados dentro de um carro, sufocados.

O físico e o emocional são testados, num isolamento forçado que, dizem quem participa, leva à loucura.

Uma ex-participante me contou que não conseguia dormir por causa da movimentação por trás das paredes da “casa”, em que câmeras se movem, zoons fazem ruídos, profissionais conversam, riem.

Privar do sono é outra técnica de tortura conhecida.

O programa acabou, ela ficou ainda dois anos com dificuldades para dormir.

A resposta aos críticos é fácil: vai quem quer; disputam para estar lá; sai quem quer; assiste quem quer; os incomodados que mudem de canal; ficam famosos depois, até saem na Playboy…

O infeliz do “personagem-real”, um médico, extrapolou, assediou de uma forma criminosa, não foi impedido na hora, e achou que cumpria as intenções do show.

A emissora exibiu as imagens, e só com o protesto nas redes sociais e a ação da polícia, se deu conta do absurdo.

Tentou resolver o ilícito pelo “confessionário”, um cenário do show, ao vivo, como parte da programação.

O apresentador ainda veio com essa: “A nossa casa está inserida em um contexto maior, que é o contexto da lei.”

Ah, vá…

“A gente ficou aguardando um parecer técnico sobre o assunto. Quando há, por exemplo, abuso psicológico, a vítima precisa ir ao confessionário ou precisa ir a uma delegacia para reclamar.”

A trama está perfeita.

A moral do show está em paralelo com a lei.

Uma personagem, a vítima, sabe o que está ou não no roteiro?

Uma atriz que leva um tapa de um ator, numa cena em que personagens se batem, sabe se naquele tapa há atuação ou verdade, se faz parte da cena?

Não me espanta a vítima demorar para reconhecer o assédio.

Me espanta o quanto este tipo de programa mobiliza, e a noção do real é deturpada.