Precisamos falar de Paterson

Precisamos falar de Paterson

Marcelo Rubens Paiva

18 Maio 2017 | 11h39

 

O novo filme de Jim Jarmusch é um caso sério.

É uma homenagem ao velho e bom cinema.

É para ser visto diversas vezes, devido à quantidade de informações e simbologia.

Sua linguagem parece se contrapor aos caminhos seguidos pela indústria, em que roteiristas e diretores se debruçam sobre manuais de roteiro e ignoram a alta-cultura, alta literatura, a poesia.

Não por outra, Infinite Jazz, de Foster Wallace, aparece na estante do motorista de ônibus e poeta, Paterson, de Paterson, Nova Jersey.

Alguns poemas declamados no filme são de Jarmusch.

Os declamados pelo protagonista são de Ron Padgett, do movimento conhecido como Escola de Nova York, estrela da poesia contemporânea e ainda em atividade.

Que começou editando um jornalzinho de poesia em que conseguia publicar inéditos de Allen Ginsberg, Jack Kerouac, LeRoi Jones, e. e. cummings, enviados pelos próprios.

Do que se trata o filme?

Da fugacidade da poesia, da arte, da vida.

De viver e observar a simplicidade do mundo, como caixas de fósforo, inspirado.

O cachorro é o divertido “vilão”. No começa, uma gangue informa que aquele cachorro vale muito e pode ser roubado.

Esperamos o filme todo que ele seja.

Um golpe contra todas as regras do novo cinema de ação é praticado (em 10 minutos, apresenta-se o personagem, em 20 minutos, apresenta o conflito, seguimos com o “herói” por sua jornada, pontos de virada modificam a trama).

Nada disso acontece.

O filme não tem o bem e o mal, todos têm problemas, todos têm manias, paixões, todos vivem.

Todos têm um duplo (repare que muitos personagens são gêmeos), como um poeta motorista de ônibus, um motorista de ônibus poeta anônimo, que vive realizado em seu anonimato, prefere-o.

O elenco é fenomenal, com o melhor ator atualmente, Adam Driver, e a sedutora Golshifteh Farahani, de ascendência iraniana.

O personagem não quer ter celular. Não quer entrar na onda digital.

Apesar do filme ser produzido pela Amazon, que entra com pontapé na porta no mercado de filmes e séries.

A cidade onde se passa o filme é berço de Allen Ginsberg e William Carlos Williams e aparece em On The Road, de Kerouac.

O cachorro do filme, personagem à parte, um bulldog inglês; na verdade é uma cadela, Nellie, morreu ano passado, depois de ganhar o Palm Dog Honor de Cannes, que cães notórios, como de O Artista e o de Daniel Blake, já ganharam.