Por que saí do Facebook

Por que saí do Facebook

Marcelo Rubens Paiva

02 Fevereiro 2018 | 11h52

 

Não tenho nada contra o Facebook. Acho que é uma rede social que presta serviços, cria debates, reaproxima pessoas e faz companhia a solitários ou insones.

Na verdade, não saí, abandonei a conta.

Não quero apagar anos de videozinhos dos meus filhos, os quais nem sei se tenho cópia.

Saí do Orkut no início. Abandono o Face com a mesma convicção.

No início, apenas amigos se reencontrando já era como uma festa, em que se lembrávamos os bons tempos, trocávamos fotos de filhos, netos, informações.

Com a polarização política, tornou-se uma rede de debates virulenta.

Descobri então por que me afastara daqueles amigos dos velhos tempos. Porque não tinham mais a ver comigo.

Os mais próximos são os com quem tenho afinidades. Os distantes, apenas um passado nos une, e lembranças.

Quem gosta de debate e principalmente tem tempo, encontra no Face o espaço na medida.

Imagine se você tem mais de 1 mil amigos (seguidores).

Serão 1 mil escrevendo sobre a condenação do Lula, a imoralidade dos juízes que recebem auxílio moradia, queixando-se contra o serviço de internet, a operadora de celular, o banco.

Além dos textos, que podem ser textões, vêm os comentários, as réplicas, as tréplicas, algumas ofensivas: o debate.

É como passar o dia lendo 1 mil colunistas de revistas ou jornais, entendedores, e seus leitores.

Tem gente que tem disposição.

Muitos preferem só as fotos, e para isso tem o Insta.

Outros, as informações rápidas, concisas, com link daquilo que se quer ler, e fotos e vídeos, com um facilitador de bloqueio e sem censura. Para esses, o Twitter é ideal.

Amigos e família encontro no Zapzap.

Há dois meses sem entrar no Face, restringindo a privacidade (apenas eu posso postar na minha página; como não posto nada, não existo mais), imagino que serei esquecido pelo algoritmo misterioso que comanda a socialização da rede.

Deixarei de existir.

Ficarão minhas fotos, vídeos, memória.

Deixarei de ler alguns dos meus favoritos.

Como os desabafos sinceros e muitas vezes procedentes dos amigos Marcelo Mirisola e Mario Bortolotto, um contra a incompreensão dominante, o outro em defesa da sua solidão.

Mas, como diz meu irmão Kiko Zambianchi, “eu te amo você, mas não quero me ver, te roubando o prazer da solidão, eu te amo você, mas não quero te ver, me roubando o prazer da solidão”.

Importante: o Face é uma empresa astronomicamente lucrativa e mentirosa. Afirma ter mais de 2,4 bilhões de usuários. Nada disso. Pode até ter este número espetacular de contas, mas a grande maioria está inativa ou abandonada, como a minha. Basta ver a quantidade de amigos que há anos não publica nada. A verdade seria dizer quantas contas ativas ela tem. Sem contar que muitas são bots, robôs, ou uma mesma pessoa pode ter várias contas.