Obra homenageia pioneiro do grafite

Marcelo Rubens Paiva

31 Março 2015 | 17h21

Em 1987, GUTO LACAZ apresentou na Galeria Subdistrito o objeto ALEX ALEX, em homenagem a Alex Vallauri, precursor do Grafite, que morreu de Aids em 27 de março, hoje considerado o Dia do Grafite.

No início deste ano, o CCSP (Centro Cultural São Paulo) o convidou para construir ALEX ALEX em escala urbana e instalá-lo na sua fachada, para homenagear Vallauri.

Veja como foi a montagem.

 

 

Fica em exposição 24 horas até o dia 28 de junho de 2015

Quem foi Vallauri?

Escrevi em homenagem a ele:

 

A Avenida Sumaré de São Paulo tinha sido inaugurada há pouco. Era um cenário futurista, idealizado para abrir rotas de fugas, desentupir artérias. Passava por baixo do metrô, invertendo a dependência. Andar de carro por ela virou uma atração. Ver seus grafites, também.

Numa tarde, vi o próprio Keith Harring com Vallauri grafitando na pilastra do viaduto do metrô. Ao lado, morava Nick Cave. O que eles buscavam? Muito mais do que desenhos que provocam a discussão do sentido da arte proposto por Duchamp, depois Warhol, Lichtenstein, Pop Art e Basquiat. Tiravam a arte do universo elitista e fechado dos museus e galerias. Interagiam com a poluição visual e o caos urbano. Arte era parte da cidade.

Warhol e Vallauri, que morreram no mesmo ano (1987), estão agora juntos no Museu de Arte Moderna, ao lado da Bienal, em que Vallauri foi monitor em 1969, museu onde ele fez sua primeira exposição individual, em 1970, aos 21 anos de idade. São 170 obras em técnicas e suportes variados selecionadas pelo curador João Spinelli, amigo e colega de faculdade de Artes Plásticas [FAAP] de Vallauri

“Rendam-se terráqueos” era a pichação que no final dos anos 1970 abriu caminho para a livre expressão em tempos difíceis e provocar inquietude numa classe média urbana acomodada em expansão, que andava obcecada por um ideal: o consumo.

Vallauri grafitou com fôrmas de placas de PVC ranhuras do delírio entre o real e a fantasia. Televisores, botas, bidês [olha a influência…], secadores de cabelo, pichado nos muros, passaram a fazer parte do mobiliário urbano kitsch e da nossa rotina: um aparte no corre-corre, uma distração que emitia mensagens. 

Vieram esqueletos, telefones, luvas e figuras dos quadrinhos, como Mandrake, além de cantores pop como Freddie Mercury e Madonna. Arte estava ao lado do povo, como lixeiras, orelhões e pontos de ônibus. Até a “a rainha do frango assado”, em colunas gregas, colorida, divertida, surgir para oferecer carne sem sabor aos olhos, como uma dura lição lúdica da falta de funcionalidade da arte.

Sua arte também militava. Era ditadura no Brasil. Suas araras apareceram em prol das Diretas Já. As pintas de onça, a textura sensual do brega, surgiram para negar a imposição do gosto e estética burguesa; Jardins era o bairro em que ele mais grafitava.

Fugaz como uma cidade que é demolida e reconstruída periodicamente, as intervenções também se foram. Hoje, tais placas de PVC cortadas no formato do desenho, a “Panterete”, o “Caranguejo” e um “Coração”, são o que restaram, além de gravuras.