O mundo do faz de conta de Bia Doria

O mundo do faz de conta de Bia Doria

Marcelo Rubens Paiva

10 Outubro 2016 | 13h08

É a estrela da semana; duas grandes entrevistas.

Uma para o ESTADÃO [Sonia Racy] e outra para a Folha [Silas Mastí].

Seu site foi atacado por hackers: http://www.biadoria.com.br/

Mas ficamos sabendo da intimidade e o que pensa a artista plástica BIA DORIA, nova primeira-dama de São Paulo.


Requereu Lei Rouanet [inimiga da direita raivosa] para uma exposição em Miami em2014 e produzir e publicar um livro no primeiro semestre de 2016 sobre sua obra [Pronac 154597].

O livro BIA DORIA – PRETO NO BRANCO, com tiragem de 1.500, para documentar suas esculturas vem com texto de Márcio Pitliuk, em duas línguas.

JUSTIFICATIVA para a captação: “Livro servirá de referência para estudantes, leitores interessados na arte brasileira, colecionadores que buscam informação e registro documental da artista”.

Pediu R$ 373 mil. Foi autorizada a captar R$ 300 mil.

 

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Contrapartida Social: “O produto resultante do projeto (livro) terá 15% de sua tiragem (225 exemplares) enviados ao MinC/FBN, órgãos municipais e estaduais de São Paulo ligados a Educação e Cultura (que distribuirão conforme critérios estabelecidos, às bibliotecas, escolas e Instituições públicas), e mesmo os 40% (600 exemplares), serão vendidos a R$ 50,00 (teto vale cultura), graças ao apoio e incentivo deste Ministério, facilitando assim a democratização de acesso ao mesmo”.

ACESSIBILIDADE: “O lançamento do livro será na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, que possui total acessibilidade a portadores de necessidades especiais e idosos”.

As obras de Bia são esculturas de 10 toneladas que utilizam material reciclado, troncos de árvores queimadas, mortas, e mármore brasileiro.

Ela ganharia R$ 24.902 de direitos autorais. R$ 9 mil pela pesquisa do livro.

O valor do redator foi vetado pelo MinC. De R$ 45 mil, foi para R$ 16 mil

O do editor, idem. Era R$ 24 mil. O valor sugerido pelo MinC foi zero.

Gastaria ainda R$ 14 mil para divulgação: e-mails (R$ 3 mil), assessor de imprensa (R$ 6 mil) e convites (R$ 5 mil).

Não se tem notícias do livro.

Pela entrevista da Folha, descobrimos que ela dirige um Porsche Cayenne preto, o SUV da Porsche.

Valor: entre R$ 381 mil [3.6 V6 4WD] a R$ 914 mil [4.8 V8 Turbo mS] – Tabela FIPE

Vive no mundo encantado dos Jardins.

Trabalha a três quilômetros de casa.

Ateliê na Vila Nova Conceição – Residência no Jardim Europa.

Frases que já viraram um hit.

Minhocão: “O Minhocão hoje para que serve? Quase nunca fui lá. É tipo um viaduto, né?”

Parque Augusta, cujo terreno está em litígio com seus amigos da Cyrela: “Onde é isso? Não conheço. Imagina quem tem filhos no centro. Vão passear onde? Vou falar para o João que lá tem que ser parque.”

Rua Avanhandava, a única que conhece do centro: “Aquela vielinha tortinha onde fica a Famiglia Mancini”.

A vida é bela: “Coloco o telefone aqui [no console do carro] e vou respondendo WhatsApp. Olha como a vida é bela no Instagram”.

Como é difícil arrumar uma empregada: “Imagina como eu ficaria feliz se chegasse uma arrumadeira já sabendo fazer as coisas. Pouquíssimas delas sabem, a não ser as que já passaram por várias casas, mas aí elas vêm cheias de manias.”

Os dentes dos empregados: “Todos moravam em barracos e nem tinham dentes. Consegui casa para todos eles, dei dentes para eles, dei um plano de saúde bom. Hoje eles se sentem felizes, até se acham artistas porque são meus assistentes.”

O povo: “Eu me dou muito bem com pessoas mais humildes. Às vezes é só um aperto de mão, às vezes elas querem um abraço. É tão pouco o que elas querem.”

Sociedade escravocrata.

Bia Doria tem direito a achar que sua obra merece ser conhecida em escolas através de um livro.

A Lei Rouanet é legítima, apesar de contestada.

Mas poderia conhecer melhor a cidade e reconhecer que não são apenas abraços e dentes que as “pessoas humildes” querem.

Querem poder afirmar que a vida é bela e viver num mundo como o dela.

Querem salários, dignidade, respeito, direitos trabalhistas, um Estado que garanta casas, saúde, educação [e dentes] e oportunidade de aprender.