O Estado precisa defender a liberdade.

O Estado precisa defender a liberdade.

Marcelo Rubens Paiva

02 Outubro 2017 | 11h04

 

Quando o Estado, guardião do direito sagrado de Liberdade de Expressão, se posiciona contra a manifestação artística, o pior se instalou.

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, soltou um vídeo dizendo que o Rio não receberá exposição que “promove pedofilia e zoofilia”.

Referia-se a Querrmuseu, convidada para se apresentar no MAR (Museu de Arte do Rio).

“Só se for no fundo do mar”, finaliza o prefeito no vídeo.

O prefeito de São Paulo, João Doria, com os olhos voltados para 2018, manifestou-se contrário à performance do MAM, museu que não está sob sua administração.

Poderia defender o sagrado direito de livre manifestação, independentemente de gostar ou não da performance a que não assistiu.

Preferiu cair na graça da onda conservadora que reverbera em parte do eleitorado.

O ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, ao invés de estar do lado dos 250 artistas prejudicados pelo cancelamento da exposição Queermuseu em Porto Alegre, fala numa classificação etária em museus.

Não seria mais digno do cargo Leitão, meu amigo, egresso do jornalismo cultural, um homem que entende da burocracia estatal, estar ao lado da Constituição e dos artistas?

Ele é uma esperança de luz num governo impopular e envolto em escândalos.

De que lado o Estado está?

Exposições recebem protestos.

Exposições sempre receberam protestos.

A maioria, contra a estética proposta, por romper demais com as normas vigentes.

Até a primeira apresentação de Nijisnky em Paris, da coreografia de Pássaro de Fogo Stravisnski) foi vaiada.

Como os modernistas foram vaiados no Municipal, em SP.

No Brasil, segundo pesquisa da Fecomércio/RJ:

  • 92,5% não costumam ir a uma exposição de arte
  • 91,25 não vão a espetáculos de dança
  • 88,6% não frequentam o teatro
  • A compreensão de representação está evidentemente deturpada.

A confusão entre realidade e arte se manifesta no dia a dia.

Atores são xingados por conta das ações de seus personagens impopulares telenovelas.

A Justiça, através juiz da 1ª Vara Cível do Foro de Jundiaí, Luiz Antônio de Campos Júnior, sentenciou que exibição da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu ia de “encontro à dignidade cristã, posto apresentar Jesus Cristo como um transgênero, expondo ao ridículo os símbolos como a cruz e a religiosidade que ela representa”, se exibida pagaria pena de multa diária de R$ 1 mil e risco de um novo processo por crime de desobediência.

O Estado não promove assim o rompimento de um direito constitucional?

O Estado precisa escolher o lado da liberdade.