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O Brasil não abaixa o freio de mão

Marcelo Rubens Paiva

01 Março 2016 | 11h03

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Censura? Ora…

Existe algo mais ridículo?

Dos 15 aos 18 anos, entre 1974 e 77, eu fazia teatro amador num clube da elite no coração dos Jardins, em São Paulo, infantis peças que seriam exibidas aos associados e seus filhos, num auditório improvisado no salão de festas.

Peças como Romão e Julinha, A Bruxinha que Era Boa, Viagem ao Faz de Conta. Mesmo assim, precisávamos do selo de aprovação da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP). Agendávamos a visita da censura. Um dia antes da estreia, fazíamos o que a classe teatral chamava de “o espetáculo da censura”, geralmente antes do ensaio-geral, sem palavrões, duplos sentidos, metáforas políticas.

Uma senhora de coque se sentava sozinha no meio da plateia com uma prancheta no colo. Já estava tudo previamente combinado: suprimíamos qualquer frase ou cena que traria desconforto à velha e entediada senhora funcionária pública. Ele assistia sem sorrir, dava o atestado, não aparecia mais, e voltávamos ao texto as falas cortadas.

Quem eram essas figuras abomináveis?

 

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Como aceitavam esta missão canalha? O documentário Estranhos da Noite, de Camilo Tavares, mostra a presença de censores no Estadão entre 1968 e 1975, a relação entre eles e a redação. Sofriam provocações. Soubemos que, além de proibido falar do surto de meningite na cidade, a palavra “Leonardo” estava vetada no jornal. Pois um censor, chamado Leonardo, achava que alguém ia aprontar com ele. O pintor renascentista virou então apenas Da Vinci.

A censura instituída com o AI-5 em 13 de dezembro de 1968, que criou a DCDP, por onde deveriam previamente passar todas as obras artísticas, filmes, peças de teatro, músicas, discos, antes de executados nos meios públicos, deveria ter sido abolida em 1979 com a revogação do AI-5, já que o projeto de abertura política estava em andamento. Mas não. Acabou a DCDP e criaram o Conselho Superior de Censura.

A censura, como um verme em coma, resistia a todos os antibióticos. Raul Seixas até fez uma música para ela, Anos 1980: “Hey, anos 80, charrete que perdeu o condutor. Hey, anos 80, melancolia e promessas de amor. É o juiz das 12 varas de caniço e samburá dando atestado que o compositor errou, gente afirmando não querendo afirmar nada, que o cantor cantou errado, e que a censura concordou.”

Se a música em voga era o rock brasileiro, sobre o rock brasileiro ou o estilete da censura. Em 1980, censuraram Conexão Amazônia e Veraneio Vascaína, de Renato Russo, ainda na fase da banda Aborto Elétrico, referência ao carro da Chevrolet, Veraneio, o preferido da polícia. “Toda pintada de preto, branco, cinza e vermelho, com números do lado, e dentro dois ou três tarados assassinos armados uniformizados”.

Nem a banda Blitz, pejorativamente chamada em São Paulo de “rock de bermudas”, por ser mais praiana e relaxadona, se safou. Em 1982, Cruel Cruel Esquizofrenético Blues e Ela Quer Morar Comigo na Lua foram censuradas. Ambas do álbum As Aventuras da Blitz, de Você Não Soube Me Amar. Como o LP já estava prensado, a saída foi inutilizarem no depósito da gravadora as duas faixas vetadas com riscos. A agulha do vinil passava reto pelas músicas proibidas. Brasileiros ficaram livres de ouvir “ela diz que eu ando bundando” e o duplo sentido da palavra “peru”.

Os Inocentes decidiram gravar um LP independente em 1983. A Polícia Federal censurou TODAS das 13 músicas. Mudavam a letra e mandavam de volta para a censura. Na frase final de Miséria e Fome, que fala de reforma agrária, incluíram: “Não estou culpando ninguém, não estou acusando ninguém, apenas conto o que eu vi, apenas conto o que eu vivi…” Enfim, só três músicas foram liberadas. O que era para ser o primeiro LP da banda virou um compacto de 12 polegadas que só tocava em 45 rotações.

Em 1983, Sônia, do Leo Jaime, foi censurada. Sônia era Sunny, clássico dançante dos anos 1960 de Bobby Hebb, que ganhou uma versão sacana: “Sônia, vamos nessa festa fazer um trenzinho, você na frente e eu atrás, e atrás de mim um outro rapaz….”. A Censura exigiu que o disco viesse com o selo “proibido para menores de 18 anos” e fosse vendido lacrado. Leo Jaime voltaria a ser censurado de novo em Cobra Venenosa: “Eu sou uma cobra venenosa, que pica, que pica…” Em desforra, ele fez Solange (sobre as bases da música do Police, So Lonely), em homenagem a Solange Maria Teixeira Hernandes, chefe da censura brasileira entre 1981 e 1984, patética figura conhecida como Dona Solange, dessas cretinas fundamentais que existem numa ditadura: “Eu tinha tanto pra dizer, metade eu tive que esquecer, e quando eu tento escrever, seu nome vem me interromper, eu tento me esparramar, e você quer me esconder, eu já não posso nem cantar, meus dentes rangem por você. Solange, Solange…”

Em 1984, foi a vez de Lobão, em Teoria da Relatividade. Falava de um triângulo amoroso: “Livros na minha cabeceira, ela na cama com outro rapaz”. Em 1985, Roger, do Ultraje, com as músicas Prisioneiro e a divertida Marylou, galinha que bota “ovo pelo sul” e foi barrada pela censura. Em 1986, Titãs. Se as rádios, por conta do refrão “vão se foder”, tocassem Bichos Escrotos, de Cabeça de Dinossauro, seriam multadas. Em 1986, foi a vez de Música Urbana, Capital Inicial, receber o veto.

A ditadura acabou em 1985. Mas a censura seguiu, dessa vez sob o comando do superintendente e depois diretor-geral da Polícia Federal, o “xerife” Romeu Tuma, que virou senador pelo voto por SP anos depois. O democrata governo Sarney ainda censuraria o filme Je Vous Salue Marie, de Godard, por pressão da Igreja Católica.

Ela só foi “abolida” em 1988, com a promulgação da nova Constituição. Entre aspas.

O Brasil não abaixa o freio de mão.