o brasil comunista

o brasil comunista

Marcelo Rubens Paiva

08 Outubro 2012 | 12h24

 

Marx acreditava que o capitalismo continha em si o germe da própria destruição- com suas contradições internas, como a exploração extrema do proletário, o regime se desdobraria em tamanha injustiça que não seria mais sustentável e daria lugar a uma nova forma social.

Na teoria a revolução era iminente. Na prática o capitão brasileiro Luís Carlos Prestes se aproveitou da insatisfação de proletários, camponeses, antifascistas e burgueses progressistas, arregaçou as mangas e, apoiado pela Internacional Comunista, liderou um levante em novembro de 1935.

Em Recife e Natal foi instalado um governo revolucionário provisório.

No Rio de Janeiro não houve como se esperava sublevação espontânea.

O movimento foi derrotado em dias e recebeu o pejorativo nome de Intentona.

Foi o mais perto que o Brasil chegou da utopia socialista.

E se tivesse dado certo?

Estaria no Wikipedia:

 

Depois da revolução, o tema do debate de abertura do Politburo carioca foi: o que fazer com aquela estátua de braços abertos sobre a Guanabara que representava o ópio do povo.

O líder Prestes não poderia acordar no Catete, dar um “guten tag” para a primeira-dama, Olga Benário, ler a edição matinal da Classe Operária, maior e único jornal em circulação, já que todos os outros foram empastelados, e ver da varanda “o suspiro da criatura oprimida” (Marx).

Ocorreram discussões acaloradas no Comitê Central. Os ilustres comissários do povo propuseram:

1. Demolição irrevogável da estátua com o uso de dinamite.

2. Substituição por outra do mesmo tamanho de Marx e Engels. Seria uma obra de engenharia utópica, já que os dois filósofos gorduchos não caberiam no topo da montanha.

3. Substituição da estátua por uma de Prestes, este, sim, baixinho e leve. Mas o próprio levantou dúvidas quanto ao culto precoce à sua personalidade.

4. Substituição por uma de Lênin. Figura já muito batida e explorada pelos camaradas russos.

5. Trocar por um grande trator em homenagem às fazendas comunitárias.

6. Trocar por uma foice e um martelo.

Mas um jovem arquiteto, que não aparentava a idade que tinha, figura influente nas fileiras do partido, Oscar Niemeyer, propôs transformar o turbante da estátua num macacão, incluir um capacete sobre a cabeça, erguer o braço esquerdo e fechar os dedos da mão.

Em 1941, no aniversário de cinco anos da revolução, a tropa de voluntários que embarcava para defender Stalingrado e Leningrado do cerco nazista desfilou no Aterro do Povo e saudou a antiga estátua do Cristo Redentor, rebatizada como Impávido Trabalhador.

O regime não teve muitos problemas com a literatura revolucionária. Afinal, a maioria dos autores, como Oswald de Andrade, Jorge Amado, Graciliano Ramos e Dias Gomes, era das fileiras do partido. Apenas um pornógrafo, Nelson Rodrigues, porta-voz da crise do proletário suburbano, deu trabalho aos censores.

Nas artes plásticas, Portinari liderou a estética do realismo socialista tropical. O cinema novo rasgou o protocolo alienante do cinema americano e, influenciado por Eisenstein, filmou a grande tomada do Campo dos Afonsos pelas tropas lideradas por Prestes e a invasão do Paraguai, das Guianas e das Ilhas Malvinas, que passaram a fazer parte da União das Repúblicas Socialistas Brazucas.

A censura encontrou problemas num movimento pequeno-burguês iniciado no final dos anos 1950 em Ipanema. Alguns pensaram em banir de vez aquele ritmo que misturava jazz com samba e subsidiar outro que usava balalaica, tambores e chocalhos.

Porém o que mais deu trabalho foi intervir nas letras daqueles que preferiam uisquinho a vodca.

Ninguém chegou a ser mandado pro trabalho forçado no Gulag Marajó. Prontamente modificaram as músicas. Garota de Ipanema virou Trabalhadoras de Ipanema Uni-vos!, e sua letra substituída por “olha, que coisa mais determinada, mais cheia de metas, é ela a operária que vem e que passa, com o balanço eficiente da linha de produção…”

Indignado mesmo ficou o consultor do povo, J. R. Tinhorão, com a música O Pato. Propôs a substituição da letra por “o trator vinha arando eficientemente, ram, ram, quando o camponês sorridente, comemorou a colheita, colheita, colheita.”

O autor João Gilberto só não foi expurgado porque um poeta também simpático aos ideais da revolução, apesar de estar sempre de porre, Vinícius de Moraes, interveio em carta pessoal ao partido, comovente e repleta de clichês marxistas, que dizia: “Que eu possa me dizer da Internacional Socialista: que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinita enquanto dure.”

Anos depois, como se não bastassem os probleminhas na Europa com a Primavera de Praga, revoltas estudantis e a decadência do capitalismo exemplificada pelo esvaziamento das barbearias da vanguarda revolucionária, o Comissariado começou a se preocupar com a má influência de uns cabeludos que organizavam um movimento chamado tropicalismo. Apesar de não entender “nada, nada!”, mandou alguns deles colherem cacau na Bahia e prendeu uma banda chamada Mutantes, provocativa e niilista.

Nos anos 1980 se iniciou uma détente que fez vista grossa à explosão do rock brasileiro, cujos refrões “você não soube reformar”, “a gente não sabemos votar pro comitê central”, “que união das repúblicas é essa?” e “ideologia, não quero uma para viver” foram espantosamente escutados nas rádios estatais.

 

 

Prestes veio a falecer em 7 de março de 1990, desapontado com a queda do Muro de Berlim, o Nobel para Gorbachev e o fim do futebol arte. O Cavaleiro da Esperança se tornou o líder mais tempo à frente de um país, 55 anos, recorde imbatível. Seu concorrente direto, Fidel Castro, ficou “míseros” 49 anos. Apenas um político da República do Maranhão, José Sarney, pode ainda quebrá-lo.

No velório de Prestes, todos perceberam: questão de meses o colapso da URSB e URSS. Não deu outra.

O governo posterior, de Roberto Freire, foi substituído por de Aldo Rebelo, que baniu estrangeirismos russos, que levou um golpe do pagodeiro Netinho, que rachou com chefe da polícia política, Zé Dirceu, o mais radical dos extremistas, e mergulhou o país no caos.

Por fim, uma ruptura no regime reintroduziu a economia de mercado no Brasil. O primeiro Mc’Donalds foi aberto no Palácio do Povo, antigo Copacabana Palace. Foi após comer um Big Mac que o poeta Ferreira Gullar, ex-membro do PC, rasgou a sua carteirinha e saudou o novo regime declamando: “Dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola, picles num pão com gergelim. Vem, capitalismo, vem  a mim!”

O próprio Oscar Niemeyer, gozando de boa saúde e ainda sem aparentar a idade que tinha, foi incumbido a desentortar o braço do Cristo.