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O Brasil atrasado da moda

Marcelo Rubens Paiva

25 Maio 2014 | 13h01

 

A ELLUS surpreendeu no desfile primavera-verão do SPFW deste ano com a campanha #protestoellus: Abaixo Este País Atrasado.

Um protesto esquisito, num local que não combinava.

Um debate ideológico se seguiu, sob o hálito do verdadeiro debate, o da luta de classes.

Como o debate sobre os que reclamam da deselegância dos novos consumidores em aeroportos e da construção de uma estação de metrô que traria gente “diferenciada” num bairro de gente fina e educada, que anda de metrô em Paris e NY.

 A ELLUS esclareceu. Soltou o “DESABAFO”:

“O Brasil está entupido, um congestionamento em tudo. Não anda no trânsito, nos aeroportos, nos hospitais, nas estradas, na energia, nas escolas, na comunicação, na burocracia (corrupção)… Até a água está entupida!

Dificuldade para tudo! As coisas não fluem! Tudo é tão difícil! Tudo isso gerando esse custo. Brasil = ineficiência, improdutividade. Isso faz com que fiquemos isolados do mundo, acarretando esse atraso todo em relação ao mundo moderno.

É claro que os maiores responsáveis são os políticos e os governos antiquados, cartoriais, quase medievais, que com suas ideias atrasadas de protecionismo acabam por gerar atrofia.

Até para indústria da moda, exportar o nosso design fica difícil com todo esse custo, abrindo espaço maior para as importações de roupas e acessórios provenientes de países pobres, porque nós não temos condições de competir.

Precisamos desburocratizar, simplificar para motivar, avançar, abrir, internacionalizar, se não, cada vez mais, ficaremos isolados nas geleiras do Polo Sul.

Que Brasil é esse em que até as empresas e patrimônios públicos acabam destruídos?!?!

ABAIXO ESSE BRASIL ATRASADO!

TIME ELLUS”

Faz sentido.

Até lembrarem que a empresa é questionada pela Justiça se utiliza MÃO DE OBRA ESCRAVA.

O Processo corre na 2ª Região do Ministério de Trabalho e foi denunciado pela procuradora Carolina Vieira Mercante em 2012, que instaurou um inquérito civil e convocou representantes da Etiqueta Ellus através da portaria 1083/2012.

 

 

As empresas Marisa, Pernambucanas, C&A, Zara, Collins e Gregory também estiveram na mira do Ministério do Trabalho por causa de denúncias do uso de trabalho escravo.

Em 2010, a Marisa recebeu 48 autos de infração: 16 bolivianos trabalhavam em condições análogas às de escravidão na zona norte de São Paulo; cadernos encontrados no local davam indícios de tráfico de pessoas; funcionários cumpriam uma jornada que começava às 7 da manhã e seguia até às 9 da noite, com expediente do fim de semana.

Multada, a empresa cortou mais de 70 fornecedores.

A Zara recebeu 48 autos de infração: jornadas de até 16 horas por dia, salários irrisórios, proibição de deixar o local sem autorização prévia, uso de mão de obra infantil, ambientes se ventilação, fiação exposta.

A empresa foi multada e passou a se envolver em ações de auxílio a imigrantes.

Em 2011, a Pernambucanas foi informada que trabalhadores em condições degradantes haviam sido encontrados em duas oficinas, menores de idade, mulher com deficiência cognitiva; trabalhavam mais de 60 horas semanais em troca de um salário médio de R$ 400.

A empresa subcontratada assumiu a culpa.

A Gregory recebeu 25 autos de infração. Em 2012, a Superintendência do Ministério do Trabalho achou evidências de trabalho escravo; trabalhadores recebiam R$ 3 por cada vestido de renda confeccionado; oficina embolsava R$ 73, e a loja o vendia por R$ 318; 23 bolivianos foram libertados, todos submetidos a jornadas excessivas de trabalho e servidão por dívida; armários eram trancados com correntes para que os trabalhadores não se alimentassem em horários impróprios.

Está tudo na matéria de 2012 da repórter Marcela Ayres da Reuters, na Revista Exame:

http://exame.abril.com.br/negocios/noticias/o-que-a-zara-e-5-grifes-fazem-mesmo-com-o-trabalho-escravo

De que Brasil atrasado falamos?