“Não acabou, tem que acabar, quero o fim da Polícia Militar”

“Não acabou, tem que acabar, quero o fim da Polícia Militar”

Marcelo Rubens Paiva

16 Março 2018 | 09h31

 

O que se viu ontem pelo Brasil, nos protestos contra a morte de Marielle Franco, é simples: quer-se uma nova política.

Não tinha bandeiras do PT ou centrais sindicais. Nem dos partidos comunistas.

Não tinha camelôs com seus isopores.

Nem a PM estava por lá (apareceu no final).

Foi uma manifestação espontânea, convocada horas antes pelas redes sociais, e que juntou multidões no Brasil todo.

Tinha uma palavra de ordem uníssona.

“Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar” ganhou uma nova versão: “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar – e racista”.

Bandeira de Marielle.

Era muita gente, que jamais será contabilizada (especialmente pela PM, em que se pedia o fim).

Jornalistas, perplexos, não sabiam por onde começar.

Participo de manifestações políticas desde 1975 (a missa do Herzog foi a primeira). Nunca vi tanta gente. Viam de todos os cantos. E nunca me emocionei tanto.

Era revolta contra o racismo. Era a vez das mulheres. Era a esperança de um novo e justo Brasil.

Nem carro de som tinha.

A manifestação que ocupou toda a Avenida Paulista nem tinha roteiro.

Conseguiu-se um carro de som ali mesmo do bloco de carnaval Tarados Ni Você, que costuma sair pelo centro da cidade cantando Caetano Veloso.

Carro de som que, como toda cidade, ficou preso no congestionamento.

A liderança do PSOL não discursou, não segurou bandeira, nem arrastou a multidão.

Sacou que o protagonismo era das mulheres, especialmente das mulheres negras.

Quem puxou uma caminhada foi o bloco de afoxé só de mulheres, Ilú Obá de Min.

Bloco que sai no Carnaval na Praça de República e, em outro dia, na Barra Funda.

Paramos todos no final da Paulista.

O carro de som conseguiria chegar na Praça Roosevelt.

Enquanto uma manifestação que vinha da Prefeitura chegava no rabo da passeata, na Brigadeiro Luiz Antônio, decidiu-se seguir para o centro.

Começamos a descer a Consolação.

Não parava de chegar gente.

A indignação só aumentava.

“Coincidência é o cara%&$, mataram um preto, pobre e favelado…”, entoavam.

“Machista, fascista, não passarão!”

Chegaram notícias de que o Governo Temer usava a manifestação e a execução para justificar a intervenção militar no Rio de Janeiro; sem a Reforma da Previdência, a intervenção, que Marielle era contra, transforma-se no único possível legado de um governo impopular.

Chegou a notícia de que a Executiva Nacional do PT associou o assassinato da vereadora ao “mesmo processo político que levou à condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.”

Não tem nada a ver uma coisa com a outra.

PT não larga o osso.

Lula não larga o osso.

O PT não estava naquela manifestação.

Ao contrário, querem uma nova política.

Querem de volta a pauta dos direitos civis, justiça social e da democracia nas ruas.

Aquelas que estão caladas.

Retomar o protagonismo da luta política.

Este é o legado de Marielle.

Esta é a missão que se pode tirar da execução covarde: reacender no Brasil a esperança vencida pela corrupção e privilégios de uma classe há muito no Poder.