Movimento pelas Diretas esclarece polêmicas

Movimento pelas Diretas esclarece polêmicas

Marcelo Rubens Paiva

02 Junho 2017 | 11h29

 

Movimento apartidário, que pede Diretas Já, juntou uma multidão domingo passado em Copacabana.

Tenta repetir a dose nesse domingo, 4 de junho, no Largo da Batata em São Paulo.


Lá, como aqui, o palco não estará fechado para políticos, mas aberto para artistas.

Gente da esquerda critica o fato de ser um movimento que torna secundária a presença de partidos e sindicatos.

Outros, de ser uma saída inconstitucional, num país que tem trauma delas.

Diante da polêmica, esclarece um de seus representantes, Alê Youssef: “O coletivo de organizadores divulgou uma nota afirmando que em nenhum momento falamos em barrar ou excluir qualquer movimento do nosso ato. Pelo contrário: achamos fundamental para a relevância da nossa manifestação a participação de todas e todos que estejam alinhados à causa das Diretas.”

 

 

Lá, Caetano Veloso, que com Paula Lavigne transformou sua casa em Ipanema numa espécie de centro de debates políticos da crise brasileira, em que quase diariamente organiza reuniões com políticos e artistas, foi o maior expoente.

Contou com Mano Brown, Rappin Hood, Mart’nália, BNegão.

Ganharam a presença surpresa de Milton Nascimento, veterano das Diretas Já de 1984.

Aqui, o SP Pelas Diretas Já, organizado por Midia Ninja, Arrastão de Blocos, Baixo Augusta e Tarados Ni Você, conta com Mano Brown, Criolo, Emicida, Otto, Tulipa, Maria Gadu, Simoninha e mais.

A inovação é por conta da organização: a iniciativa partiu dos blocos do novo Carnaval de São Paulo, que deixaram de lado as estrelas do carnaval baiano e se transformam no novo canal de militância de uma nova e politizada juventude, como Acadêmicos Baixo Augusta, Tarado Ni Você, Arrastão dos Blocos, Bloco Soviético, Vai Quem Qué e mais.

Por trás do movimento, lá como aqui, está um conhecido daqui, Youssef, militante político veterano da noite paulistana (saudoso StudioSP, uma das primeiras casas que revitalizaram a Rua Augusta), apresentador da Globo News e presidente do Bloco Baixo Augusta.

Youssef esclarece no pingue-pongue abaixo:

 

Por que fazer uma manifestação sem partidos ou sindicatos?

O que estamos propondo é uma nova linguagem: a partir de uma convocação da manifestação feita por artistas, mídia ativistas e grupos culturais, queremos estimular e envolver diversos setores da sociedade, inclusive os partidos, em torno dessa pauta urgente e que nos une.

Faremos um ato político com arte, onde as falas dos movimentos sociais e culturais que acontecerão ao longo do domingo, vão abordar as Diretas Já e outras pautas nacionais de oposição ao desastroso governo Temer.

Eles apareceram no Rio, com seus balões e bandeiras. Vocês se sentiram incomodados?

Não. É um direito de quem é engajado em qualquer causa, demostrar isso. Mas claro que seria muito bom para a ampliação do ato que todos os movimentos também se preocupassem em defender as Diretas já em cartazes e faixas que expressem isso, como pauta que unifica todo mundo que estará na rua.

Esta é uma manifestação de artistas? No Rio, Caetano e Milton cantaram. Milton, de surpresa. Em São Paulo, pode ter uma surpresa?

Tem muitos artistas expressando o desejo de se engajar. Tomara que outros grandes nomes que estejam em SP se animem para ajudar a espalhar a mensagem.

Como justificar pedir Diretas Já aos que defendem a saída constitucional?

O Instrumento da PEC é previsto justamente para que a Constituição possa ser aprimorada diante dos anseios sociais. Nesse sentido, o clamor popular e o amplo apoio às Diretas Já justificam essa emenda, para darmos ao povo o direito de decidir o futuro do país. Um projeto nesse sentido já está em curso.

Seria uma eleição para presidente para tampar um ano e meio, até 2018?

É dar ao povo o direito de decidir os rumos do país. A chamada por diretas é a defesa do conceito maior, e ela serve inclusive para esse período de transição, diante do caos político e da baixíssima credibilidade de um Congresso Nacional atolado em denúncias.

Quem seriam esses candidatos?

Cada partido poderá apresentar seu candidato. O movimento é sobre o direito de votar, não sobre em quem votar.

Incomoda a divisão Fla-Flu da militância dos brasileiros?

As Diretas já são, de acordo com as pesquisas, um tema que extrapola essa polarização. O que precisamos é “tangibilizar” esse apoio com povo na rua, para que a bolha de Brasília se toque. Nesse sentido, acreditamos que a cultura consegue romper a polarização e aproximar pessoas. O desafio é ter altivez e certeza que temos o direito de botar nosso bloco na rua.

O Carnaval se politizou?

A dificuldade enfrentada ao longo dos anos para se ocupar as ruas com arte e cultura, fez com que os blocos de carnaval ganhassem uma veia ativista, de luta. O direito de ocupação da cidade está naturalmente associado a diversas outras causas sociais importantes e elas estiveram presentes em muitos blocos esse ano.

Os blocos de Carnaval de São Paulo passam a ser representantes de bandeiras políticas?

Os blocos de carnaval são expressões da nossa maior festa de cultura popular. Essa é nossa maior causa. Diante do caos político, é natural que esse universo se expresse e que causas sejam apoiadas por esses grupos durante o carnaval e também fora dele, sem qualquer pretensão de representação, mas com muito potencial de agitação.