‘Mãe’ é a tragicômica história da civilização

‘Mãe’ é a tragicômica história da civilização

Marcelo Rubens Paiva

26 Setembro 2017 | 11h50

 

Darren Aronofsky em Mãe, com Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris e Michelle Pfeiffer, ainda está sub judice.

Cannes vaiou. A crítica se divide. O público vai ver; está entre as maiores bilheterias nos cinemas.


Aronofsky é daqueles que não abre mão do humor para abordar grandes dramas.

Não poderia ser diferente em Mãe.

Fui preparado para ver um filme de medo. Tem truques para assustar a plateia, como aparições de surpresa.

Mas ri em grande parte do filme. Gargalhei no final.

Sou agnóstico e entendi a ironia com a necessidade de se criar religiões, acreditar em algo, ter messias e cometer antropofagia com a carne do salvador (comemos o corpo de Cristo em rituais cristãos).

Terence Malik contou a história da vida em Árvore da Vida, do Big Bang à constituição da família, da criação da moral invisível como força para manutenção de poder.

Alexander Sukorov contou a história da Rússia em Arca Russa através de um plano sequência único num museu.

Aronofsky decide contar a história da maternidade da civilização judaico-cristã por alegorias.

Uma casa é construída onde antes havia o nada.

Um poeta em busca da perfeição seria o profeta que, com suas palavras, seduz, mobiliza e indica um sentido para a vida.

Pronta a escrita, cultos e religiões surgem para ganhar adeptos e seguidores.

Que não abrem mão da violência, guerras e terrorismo, para se firmar.

Altares e rituais são criados.

Muitos disputam a casa do criador, querem um pedaço dela (como em Jerusalém).

Nada é de ninguém, todos são filhos de uma mesma fé: a mensagem que unifica.

Até nascer um messias, cuja vida (morte) nos é doada em sacrifício como lição.

Por fim, um apocalipse é anunciado, já que povos não se entendem e deturpam as palavras do senhor.

Aterrorizante.

Brilhante.