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Marcelo Rubens Paiva

04 Março 2016 | 14h53

JK já foi acusado de ter a sétima fortuna do mundo.

No exílio, vivia de favor, sustentado pelo dono da Manchete, Adolpho Bloch.

Que mandava Cony e outros para Paris, com envelope com dinheiro, onde o ex-presidente cultivou uma depressão comovente.

Então… Muita calma nessa hora.

Lula pisou na bola?

 

Muitos se sentiram traídos por suas alianças espúrias e estúpidas.

Adversários abomináveis e de uma linha ideológica antagônica tornaram-se aliado, amigos íntimos.

A governabilidade deu em aberrações históricas.

Sarney, Maluf, Collor, até Delfim Netto, filhotes da ditadura, como dizia Brizola, tornaram-se conselheiros e base política.

Companheiros e “cumpadres” passaram a frequentar um círculo antes restrito a idealistas como Antonio Candido, Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Graco…

Suas andanças com empreiteiros e pecuaristas em nada combina com sua origem militante de esquerda, de uma nova via do socialismo.

Ele andava com quem “companheiros e camaradas” da esquerda deveriam combater.

O Lula dos anos 2000 não era mais o dos anos 1980, da fundação do PT.

Trabalhou e ganhou dinheiro: como metalúrgico, presidente de sindicato, de partido, deputado federal e oito anos presidente da República, a um salário mensal médio de R$ 30 mil, excelente salário, e depois como palestrante.

Pode ter construído um bom e justificável patrimônio.

Trabalhou para ter um apartamento de 297 metros quadrados no Guarujá ou um sítio em Atibaia.

Tudo poderia estar dignamente regularizado em suas declarações na Receita.

Ter empreiteiros da OAS ou Odebrecht ou Andradre Gutierrez, que disputam licitações milionárias em todos os campos da economia, especialmente do petróleo, e batem na porta frequentemente do BNDES, frequentando sua casa, disputando a honra de bancar sua reforminha, somado a pedalinhos sem origem esclarecida…

É tudo muito estranho e indigno a um ex-presidente da República. Ele deveria ter recusado tais mimos.

Pecuaristas fazem seu churrasco. Executivos das telecomunicações ampliam o sinal do seu celular.

Precisava?

Especialmente ele deveria ter recusado tais mimos.

Não poderia ter nos poupado das desconfianças?

Como ex-presidente, não deveria ter se retirado de ambientes economicamente promíscuos, que colocassem em dúvida sua boa-fé, a honra de sua luta, de seu partido e aliados históricos?

Lula deu motivos.

Nada grave.

Bill Clinton já teve de prestar depoimentos enquanto era presidente. Pois mentiu, e um presidente em exercício não deve mentir.

Sem a truculência e o ódio que se vê hoje.

Esclareceu, cumpriu seu mandato e pode eleger a esposa a próxima presidente dos EUA.

Esperamos das autoridades respeito às leis e bom-senso.

O jornalismo rottweiler fará a festa, babando diante de uma opinião pública atordoada.

A vingança ideológica é para os pitbulls latirem.

E quem trata a política como um Fla-Flu barato vai bater panela e aplaudir adoidado hoje.

Basta Lula explicar enfim de onde vem seus bens.

E então, que se investigue a lisura deles.

Nada de mais.

O problema é se ele não conseguir explicar.

Todo brasileiro pode estar enrolado na Receita. Um ex-presidente, não. Um ex-presidente socialista que veio de um partido que nasceu para mudar a forma viciada de fazer política, super visado, menos ainda.