Lançamento do ano

Lançamento do ano

Marcelo Rubens Paiva

11 Setembro 2014 | 12h08

 

Obra-prima de FOSTER WALLACE, INFINITE JEST, de 1996, romance de 1.100 páginas do meu [e de uma penca de amigos] atual favorito autor, que se matou em 2008 [sofria de depressão profunda], finalmente sairá no Brasil em novembro.

O livro mais esperado do ano tem o selo da Companhia das Letras.

E já definiram a capa, o intrigante projeto gráfico de Nick Neves, Alceu Nunes e Elisa Braga.

O título ficou GRAÇA INFINITA, depois de meses de discussão.

O tradutor Caetano Galindo conta:

“Então, como sabem os fiéis seguidores do inconstante @cwgalindo (aka moi), uma das últimas etapas pro lançamento do nosso Infinite Jest foi vencida. Fechamos um título. O livro, o monstro, vai se chamar Graça Infinita. E ficamos todos contentes. Yay. Veta de lá, veto de cá, palpites de idas e vindas. É assim que essas coisas se decidem e, insisto, é assim que elas devem ser decididas. Gostei da escolha final. Gostamos.”

Gostei também.

Quem não conhece WALLACE, comece por FICANDO LONGE DO FATO DE JÁ ESTAR MEIO QUE LONGE DE TUDO (2012), uma seleção de textos organizado pelo Daniel Galera, traduz\ido por ele e Daniel Pelizzari, e depois  BREVES ENTREVISTAS COM HOMENS HEDIONDOS (2005), ambos da Cia. das Letras.

Costumo dar de presente, e adoram.

Galindo nos brindou com um trecho:

 

Uma mão levantada pelo violentamente vesgo Carl ‘Baleia’ Whale, treze anos. Struck percebe:

‘E se você precisar peidar.’

‘É sério, né, Moby.’

‘Jim, senhor, e se você está lá jogando, e de repente tem que peidar. Parece que é um daqueles pressurizados nojentos bem quentes e tal.’

‘Deu pra entender.’

Agora uns murmúrios empáticos, olhares de um pro outro. Josh Gopnick concorda intensissimamente com a cabeça. Struck está de pé muito ereto à direita do monitor, mãos atrás das costas como um catedrático de Oxford.

‘Assim, é do tipo que é urgente pacas.’ Whale olha brevemente em volta. ‘Mas que não é impossível que seja na verdade uma vontade de ir ao banheiro, por outro lado, disfarçada de peido.’

Agora cinco cabeças estão aquiescendo, sofridas, urgentes: claramente uma questão controversa no sub-14. Struck examina uma cutícula.

‘Você quer dizer defecar, então, Baleião. Ir ao banheiro.’

Gopnik ergue os olhos. ‘O Carl está dizendo aquele tipo que você não sabe o que fazer. E se você acha que tem que peidar mas na verdade é que você tem que cagar?’

‘Assim tipo numa situação de competição, não é uma situação que você pode ir aguentando e forçando pra ver o que rola.’

‘Aí por cautela você não solta,’ Gopnik diz.

‘– o peido,’ Philip Traub diz.

‘Mas aí você se negou um peido urgente, e está correndo de um lado pro outro tentando competir com um peido quente terrível desconfortável e nojento andando pela quadra dentro de você.

 

[…]

 

‘Moby, se sou eu: eu deixo andar.’

‘Você manda ver haja o que houver?’

‘Au contraire. Eu deixo andando dentro de mim o dia inteiro se for o caso. Eu tenho uma regra de ferro: nada me escapa da bunda durante o jogo. Nem um apito ou um silvo. Se eu jogar dobrado eu jogo dobrado. Eu aguento o desconforto em nome de uma dignidade cautelosa, e se for um especialmente ruim eu olho pro céu entre os pontos e digo pro céu Obrigado Cavalheiro mais um por favor. Obrigado cavalheiro mais um por favor.’