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Isto é democracia

Marcelo Rubens Paiva

13 Março 2016 | 20h16

Continuo um cara de esquerda.

Não sou comunista.

Me divirto quando me mandam ir pra Cuba.

Já fui e adorei, apesar de lamentar ver o socialismo fracassar numa ilha linda, com muita censura e perseguição política.

Rechaço os excessos da Justiça, do MP, a coerção, a imprensa monolítica e tendenciosa, a direita homofóbica, a violência contra o cidadão.

Mas parabéns ao povo brasileiro.

Coxa ou não, são brasileiros. Classe-média branca ou diversa, não interessa mais.

Numa data infeliz, 13 de março, que coincidiu com um comício radical que há 52 anos detonou o Golpe de 64, conseguiu-se uma manifestação enorme, histórica e, aplausos, pacífica.

Para encerrar uma semana tensa, com uma terrível rede de boatos nos afligindo dia a dia, post a post.

Não teve torcida organizada do Fla se encontrando com a do Flu no meio de avenidas e praças, deteriorando um cenário político já polarizado, numa batalha campal descontrolada.

 

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Não teve bomba, como se chegou a noticiar.

Não teve tropa nas ruas.

Não teve provocação generalizada ou brigas.

Não teve conflito armado, como se sugeriu pelas redes sociais e de amigos.

Grupos pró-PT, que organizavam a manifestação Sem Medo de Ser Feliz na região da Praça Roosevelt, a cancelaram prudentemente e em tempo.

Podemos dormir em paz.

Uma guerra civil não começa no Brasil.

Uma batalha jurídica, sim.

A manifestação de hoje foi serena.

Quem é pró-Dilma é obrigado a admitir: a manifestação de hoje coloca combustível na luta constitucional pelo impeachment.

O Brasil amadureceu.

Não fui à manifestação. Não acho que a culpa seja apenas do PT.

Mas aplaudo a capacidade de organização dos opositores.

E me surpreendi, como todos os analistas, pelas vaias que Aécio e Alckmin (que aliás não tinha nada que estar lá) receberam na Paulista, e por barrarem João Dória, candidato a candidato do PSDB à Prefeitura

Fora PT não significa Viva PSDB!

Fora PT não é mais Viva Cunha, como foi no começo.

A prepotência do partido, a dificuldade em reconhecer seus erros, a arrogância de quem está há 14 anos na Presidência, a desastrosa administração Dilma, seu embate entre a necessidade de reformas e as escrituras partidárias da base, os rolos com o livro-caixa e as escrituras de Lula e sua família, a radicalização do seu discurso, a violência contra a imprensa, especialmente contra repórteres de TV, especialmente contra repórteres de uma TV que, sim, erra em ser tendenciosa, levou mais aliados às manifestações.

O cenário não é o mesmo de 1950, 1954, 1962, 1964, 1966 ou 1968, quando golpistas enfrentavam uma rebelião de militares, capitães faziam greve, soldados e sargentos se rebelavam, generais se colocavam contra marechais, e civis foram vencidos pela linha-dura, diante de uma desordem militar.

Temos instituições, Poderes, Constituição, imprensa livre, eleições diretas e controle civil dos militares.

Temos uma democracia.