História não acaba

História não acaba

Marcelo Rubens Paiva

08 Julho 2017 | 18h52

 

 

O fim da história?


Há 25 anos, um professor muito inteligente teve a ideia de, depois da queda do Muro de Berlim e colapso da União Soviética, apesar de alguns, como o presidente Michel Temer, não terem sido informados, lançar o livro definitivo, como uma crônica de Paulo Mendes Campos.

Um livro em que a história se encerraria com ele, o manual dos manuais: O Fim da História e o Último Homem.

Que ganhou o Los Angeles Book Prize, entrou na lista de best-seller do New York Times e foi saudade pelo crítico do Washington Post como “awesome, a landmark work, profoundly realistic and importante, supremely timely and cogente, the first book to fully fathom the depth and range of the changes now sweeping through the world”, que nem precisaria traduzir, pois dá para sacar que é um vulcão que expele magmas de elogios (incrível, um trabalho de referência, profundamente realista e importante, supremamente atual e oportuno, o primeiro livro a entender a complexidade e alcance das transformações que varrem o mundo).

O nome do afortunado é Francis Fukuyama.

Em meses, só se falava dele.

“Aceitando ou não a sua tese, ele injetou séria filosofia política na discussão do dia a dia, com relevância”, saiu no Washington Post.

“Fukuyama merece ter seus argumentos levados a sério”, recomendou o New York Times Book Review.

Mas não foram.

Pouco adiantava a grande imprensa clamar pela seriedade do trabalho.

A maior parte do mundo acadêmico detonou a precipitada tese de que, com o fim do comunismo, a História estava encerrada, comunismo ainda regente na segunda maior economia do mundo, com retoques de mercado livre, a China, onde mora ¼ da população mundial.

Fukuyama, filósofo, economista, cientista político formado por Harvard, como muitos do meio acadêmico trafegou pela Casa Branca, na Administração Reagan, a mais conservadora dos últimos tempos, que declarou guerra contra o comunismo, as drogas e os gays (quando a epidemia da Aids se alastrou pela comunidade homossexual americana).

Publicou o artigo The End Of History na revista The National Interest, em que defendia que a difusão mundial do livre capitalismo de mercado e das democracias liberais sobre regimes monarquistas, fascistas e comunistas, indicava o “ponto final na evolução ideológica da humanidade” e “a forma final de governo”, o que constituiria “o fim da história”.

Em 1992, o professor de economia política internacional da Universidade Johns Hopkins de Washington (atualmente dá aulas em Stanford) juntou mais 30 artigos e veio o livro-bomba.

De fato, vivíamos uma era de transformações.

Centenas de países se democratizavam: colônias africanas, ditaduras latino-americanas, reinos e regimes autoritários europeus, países ocupados pela ex-União das Repúblicas Soviéticas.

Os ares democráticos começaram a soprar em Portugal, na Revolução dos Cravos, foi para as Espana, Grécia, África, Cone Sul e Leste Europeu.

Reconhecia que mesmo as democracias estáveis, como americana, francesa e suíça, não estavam ainda totalmente livres de injustiças ou sérios problemas sociais.

Mas tais problemas eram implementações incompletas dos princípios da liberdade e igualdade de regimes que sempre melhorariam.

Para ele, a China logo sofreria um colapso, iniciado com os protestos na Praça da Paz Celestial em 1989.

A invasão do Iraque acabaria com os conflitos no Oriente Médio.

Reconhecia a ideia de que a história é um processo evolutivo a ser manipulado pelos próprios homens, em busca de uma forma de sociedade utópica (Hegel e Marx).

Dizia que o pessimismo era um vício herdado das Grandes Guerras, que “good news has come”, com o incrível desenvolvimento do último quarto do século: “democracia liberal se manterá a única aspiração política coerente que se espalhará pelas mais diferentes regiões e culturas através do globo”.

Na mesma era dos livros de autoajuda, Fukuyama faturou milhões, virou pop. E foi desprezado até pelos republicanos, ignorado na era Bush pai e filho. Subestimou o regime dos aiatolás, jihad, talibãs, Osama bin Laden, Al-Qaeda, Estado Islâmico, o desmembramento da Síria, a invasão islâmica na Europa, que leva a ascensão da extrema-direita e da islamofobia, que quase ganhou o poder na Áustria, terra de Hitler, obteve 33,9% dos votos na França, levou o Reino Unido a levantar fronteiras com a Europa, deu em Trump, que constrói muros na fronteira do país vizinho e fecha o mercado.

Não previu um ex-agente da KGB, Putin, realimentar o sentimento da Grande Rússia, invadir a Crimeia, ameaçar a Ucrânia e governar como um velho camarada soviético, num estilo imperial. Não previu que uma península sem dinheiro para plantar batatas, a Coreia do Norte, desestabilizaria a geopolítica da vibrante economia asiática. Nem o temor dos lobos-solitários.

A Iugoslávia se desmembrou logo depois do livro.

O terrorismo doméstico atacou os Estados Unidos e a Europa.

Israel construiu muros por toda parte.

A Primavera Árabe destronou ditadores e empossou outros.

E a líder da extrema-direita alemã que queima abrigos com imigrantes sírios, Frauke Petry, afirma que a Alemanha, que no passado queimava sinagogas, é terra de judeus e cristãos, não de seguidores do Islã.

Sem contar que o capitalismo entrou em erupção em 2008.

Jerusalém continua em disputa, como na época das Cruzadas. Golpes de Estado e ditaduras voltaram a ameaçar novas democracias da América Latina.

O Brasil…

A história continua sangrenta, injusta, afunilando a quantidade de bilionários, empobrecendo a maior parte da população, com uma nuvem de pessimismo encobrindo os sete mares.