Genealogia do macho alfa

Genealogia do macho alfa

Marcelo Rubens Paiva

20 Julho 2009 | 01h30

Respondendo:

Certa vez, um taxista carioca casado me revelou a sua tática infalível para conquistar amantes.

Ele entra em salas de bate-papo virtuais com o nickname “100% Fiel”. Em segundos, chovem mulheres perguntando se é possível existir um homem com o índice de fidelidade tão alto.
Feito o contado, ele desenvolve o assunto, escuta desabafos, consola as traídas que não confiam mais nos homens, conquista com a sua lábia digital, convida-as para mudarem o papo para o Messenger, troca fotos, palavras de carinho e marca encontros.

Só ao vivo, depois do ato, confessa que é casado. Porque ele está interessado em outras e as dispensa cinicamente. Não quer desenvolver uma relação com a sua… presa?


Está se lixando se alimenta a desqualificação moral de seus pares masculinos. Os fins justificam os meios. E ele pinga, de porto em porto, atrás de uma aventura sexual.

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Amando, profissional liberal, é daqueles caras que, se perguntarem que tipo de mulher o atrai, ele responde: “As que respiram.”

Também casado, é mais direto. Entra em sites de relacionamento com um perfil falso. Procura comunidades como “mulheres divorciadas”, “mulheres boêmias”, “mulheres que topam tudo”. Faz comentários divertidos, abre tópicos polêmicos, provoca discussões sobre a essência da fidelidade e a culpa cristã. A ironia é o seu leme.

As que se seduzem pelas palavras provocativas de Amando, muitas também com o perfil falso, fotos embaçadas ou ilustrações, são convidadas a migrarem para o Messenger.

Lá, a relação é desenvolvida. Fotos verdadeiras são trocadas. E ele sempre confessa, de coração aberto, que é muito bem casado, mas que gosta de se divertir.

Tem contatos em outras capitais. Quando viaja a trabalho, marca encontros com suas paqueras virtuais- algumas também casadas. Pede dicas de bares charmosos, combina a noite. Bebem, dançam, e, no final, a cartada: “Vamos para o meu hotel.”

Teve problemas com uma jovem roqueira que disse que Oasis é melhor do que Beatles. E que preferia ficar se amassando no canto escuro do bar, a conhecer o quarto bem decorado do hotel em que ele se hospedou.

Levou um susto em Salvador, quando, depois de um agradável jantar à beira-mar, levou a conquista, que não parava de beber, para o hotel, e, assim que entraram, recebeu um tapa na cara. “Você gosta?”, ela perguntou. Sua resposta foi devolver um tapa na cara dela, que riu e perguntou: “Tem mais birita nesse muquifo?”

Beberam, se estapearam e transaram. Ela gritou muito. E ele se decidiu nunca mais se hospedar naquele hotel.

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Por que os homens traem? Ficará rico o neurolinguista ou terapeuta, autor de livros de autoajuda, que publicar uma obra que se dispõe a desvendar o enigma. Certamente esgotará as edições expostas em livrarias de aeroporto.

É instintivo? Há a máxima sociobiológica que afirma que o macho alfa da espécie nasceu para espalhar os seus genes, popularmente conhecidos como espermas, entre o maior número de úteros, popularmente conhecidos como garotas, e assim garantir a proliferação e a consequente sobrevivência da tribo.

Pode haver uma interpretação darwinista nesse comportamento duvidoso. O homem que trai se destaca sobre o que não trai, já que conquista mais herdeiros e território. Portanto, a traição estaria no gene masculino. Apesar de imoral, não é culpa do marido canalha. Seria uma manifestação genética?

Aquele que for flagrado, pode vir com essa: “Amor, não é o que você está pensando. É hereditário. Culpe meus antepassados. E meus cromossomos. Não te traí. Foi a sequência de aminoácidos que herdei, que me levou para os braços de outra.”
Apenas corre o risco de ouvir: “Amor, e desde quando você começou a se considerar um macho alfa?”

Os canalhas podem usar também argumentos freudianos. “Querida, o amor pela minha mãe foi castrado pelo fato de haver o meu pai na jogada, o que me causou transtornos irrecuperáveis. Não te traí. Me vinguei. Eu, não, meu inconsciente.”

Argumentos nietzschianos não devem ser descartados: “Honey, Deus está morto, o que nos deixa irresponsavelmente livres para quebrar todos os contratos. Culpe a filosofia e a decadência dos sistemas platônicos, não a mim.”

Talvez filósofos menos niilistas possam ajudar: “Se a consciência estiver seduzida pela sensação, chuchuzinho, um objeto pode ter uma qualidade agora e pode ter outra depois. Foi Hegel quem disse. O que você vê na minha camisa são cabelos de uma loira. Mas podem ser de uma morena. Ou seja, seus.”

Mas Amando segue outra doutrina, a da vida dupla em casa, e a do jogo aberto fora dela. Afirma para seus casos que adora mulheres, não consegue ser fiel, tem uma libido incontrolável e não sente qualquer culpa.

E ela ficou latente num encontro que marcou recentemente, num bairro afastado, com uma de suas conquistas virtuais, uma secretária bilíngue, atraente, que aceitou a cantada de Amando e o seu estado civil, escolheu o dia e a hora e apareceu pontualmente com uma roupa muito sexy.

Apresentaram-se, ela se sentou, pediu o mesmo drinque que ele, sorriu, acendeu um cigarro, jogou a fumaça para o lado, olhou nos olhos do conquistador e mandou:

“Você não tem vergonha, cara? Um homem casado paquerando outras mulheres. Faz isso rotineiramente? Ela sabe? E se ela também tivesse amantes, você gostaria? Por que então está casado ainda, se parece irrealizado sexualmente dentro de casa. Tem filhos? Se separe e fique sozinho, garanhando todas as mulheres da cidade. Não tem deveres com a saúde estrutural do casamento? Acha certo? Você não presta, sabia? Conheci caras como você. Vocês nos enojam…”

E por aí vai. Amando pediu outro drinque. Escutou quieto toda a lição de moral. Concordava eventualmente com a cabeça. Até filou um cigarro da guardiã dos bons costumes. Deixou desabafar. Não interrompeu. Quando, enfim, exausta, ela ficou em silêncio, ele matou a bebida e disse:

“Conhece algum motel aqui perto? Queria mostrar o que esse papinho me causou. Garanto que você vai também se divertir.”

São histórias reais que escutamos por aí. Se ela foi? Claro que não.