Encoste o celular

Encoste o celular

Marcelo Rubens Paiva

10 Agosto 2017 | 11h37

Antes, a pessoa tinha o trabalho e a vida, e quando voltava para a vida, depois de uma jornada cronometrada, com ponto, turno, deixava o trabalho fora de casa, relaxava na poltrona da sala, com um copinho de uísque ou vinho numa mão, e o controle remoto ou um livro na outra.

Agora, considera-se que a vida de uma pessoa é o trabalho.

A pessoa é um empreendimento.


Sua vida, a carreira.

Sua história, um currículo em redes sociais.

Trabalha-se no trabalho, na garagem, no carro ou metrô, no avião, na plataforma, na calçada, andando até o elevador. Tenta trabalhar no elevador, mas não há conexão, trabalha no banheiro, jantando, com o celular na mão.

Checa mensagens acordado e quase dormindo.

Quanto tem insônia… Acessa bancos, consulta, paga contas, resolve pendências. Dorme com um travesseiro e o celular. Escova os dentes com uma mão e trabalha com a outra. Vida e trabalho são uma coisa só. O celular é uma extensão do corpo, um novo membro. São as torres de transmissão do empreendedor.

Lazer virou trabalho.

Viagem é trabalho.

A epidemia da multitasking (múltiplas tarefas) nos contaminou.

Trabalho é nosso crush, nosso like, nosso pow. Casa-se com o trabalho. Passa-se férias com ele. Seremos enterrados com nossos smartphones. Porque se voltarmos do mundo do além e ressuscitarmos, dá para dar uma trabalhadinha.

No passado, a pessoa não via a hora de viajar para, com uma latinha de cerveja ao lado, ou um coco, colocar os pés na areia e não se chatear. Agora, aproveita o tempo livre da viagem para fazer um curso com uma estrela do TED ou se hospedar em retiros que o tornem uma pessoa melhor. Melhor?

Antes, esportes eram a oportunidade de desanuviar, encontrar amigos, rir, desopilar, descontar, chutar, arremessar, lançar. Agora, a pessoa faz atividades físicas como um ganho pessoal: academia, ioga, pilates. Andar de bike não tem o propósito de ir à esquina comprar jornal ou flores. É uma atividade física para aumentar a resistência ao trabalho, e também contribuir para o respeito ao meio ambiente.

Tempo não é dinheiro. Tempo é tudo. Economizá-lo, a missão da tecnologia de informação: o 3G virou 4G, que em breve será 5G; a cada nove meses, um processador dobra a velocidade; aplicativos economizam idas a bancos, o transporte, o “dating” (precisa-se encontrar um termo em português, que classifique um encontro não como um rolê despretensioso, mas um em que há interesses afetivos em jogo e que algo pode rolar entre duas pessoas). Até o check-in em hotéis e aeroportos é feito por celulares.

Mas será que um dia nos cansaremos deles?

Ronaldo Lemos, do MIT Media Lab, escreveu para a Ilustríssima: mercado de livros digitais está em declínio em quase todo o planeta (exceto da China). Em 2016, nos Estados Unidos, queda de 16% nas vendas de livros digitais e aumento de 3,3% de impressos. Na Inglaterra, a venda de e-books encolheu 4%, e o consumo de impressos subiu 7%.

Vivemos a era do slow food (buscar o prazer de selecionar os alimentos, cozinhar e comer sem pressa). Podemos entrar na era da slow media, ler concentradamente e usar a internet sem pressa. Entramos na era da screen fatigue (cansaço das telas)?

Lemos lembra a luta do designer americano Tristan Harris, que trabalhou no Google, e as dicas dadas, aliás numa viralizada fala no TED. Ele pede um comportamento ético da indústria dos celulares, como projetar smartphones que deem a possibilidade de manter o usuário desconectado por um tempo. E a criação de listas de notícias organizadas por credibilidade, não popularidade (cliques).

A nós, usuários, o que sugere é difícil, mas não impossível:

– Desligar todas as notificações do celular, exceto as que são geradas por pessoas reais.

– Bloquear alertas disparados automaticamente e não autorizados.

– Reprogramar a tela inicial do celular, deixando visíveis apenas aplicativos essenciais. Deixar a maioria guardada em pastas fora do campo visual.

– Não abrir apps por meio de um ícone, mas por texto, digitando o nome deles para acessá-los, o que levaria a uma reflexão sobre a necessidade de usá-los naquele momento.

– A dica mais conhecida: carregar o celular fora do quarto à noite. E evitar olhar o aparelho logo após acordar.

Compre um despertador. Como um vício, ser marcado numa foto, ler a resposta de uma mensagem enviada e notar likes em posts aumentam a serotonina, a satisfação, e dá a recompensa esporádica semelhante a das drogas.

Como por elas, muitos estão escravizados por seus aparelhos, para a satisfação e os rendimentos da indústria de corporações bilionárias e dos mais ricos do planeta (Facebook, Google, Apple, Youtube, Amazon).

A periodicidade imprevisível da recompensa é o grande segredo da compulsão.

Postamos para termos curtidas.

Sem elas, não temos recompensas, vem a frustração, e postamos mais e mais. Como a droga.

Deixar de postar?

Cercado pela tentação (e prazer) que as redes sociais geram?

coluna no caderno 2 do dia 28 de julho