em busca do homem perdido

em busca do homem perdido

Marcelo Rubens Paiva

17 Abril 2010 | 12h59

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Na Segunda Guerra, os mocinhos foram para o front de batalha. No esforço de guerra, as mocinhas que queriam casar, ter filhos e esperar os maridos com a mesa pronta, de banho tomado e laquê nos cabelos, foram para as fábricas.

Acabou a guerra, o ideal do mundo livre venceu, os moços voltaram. Mas elas gostaram das carteiras assinadas, planos de saúde e aposentadoria, mundo livre e cabelos soltos.

A revolução sexual ganhou parceiros: máquina de lavar e secar, enceradeira, micro-ondas, comida congelada, creches e o universo do descartável.


Com a pílula, o controle da natalidade possibilitou enfim que as mulheres passassem a gerenciar carreiras e herdeiros. E assim ela se emancipou, queimou sutiãs e anáguas, conquistou espaço e exigiu um outro tipo de homem. Qual?

Em busca dele, muitos mocinhos perdem noites de sono, leem livros de auto ajuda, fazem cursos de culinária e pedem conselhos aos amigos gays, de quem elas gostam tanto e afirmam “ah, se não fosse gay…”

O casal Sarte e Simone de Beauvoir radicalizou. Foi o primeiro a propor publicamente um relacionamento aberto. Ele papava quem queria, inclusive as alunas dela. E ela tinha amantes espalhados.

Na peça O Inferno Sou Eu, em cartaz em São Paulo, a dramaturga Juliana Rosenthal, que leu de tudo sobre Simone, especialmente as cartas trocadas com os amantes, descobriu uma frágil melancolia e um ciúme reprimido naquela que escrevia cartinhas de amor para a sua paixão de Chicago, o escritor Nelson Algren, como uma adolescente.

O casamento aberto seria a saída para os novos tempos? “Entre a fidelidade e a liberdade, haverá uma conciliação possível? A que preço?”, filosofou Simone.

Recentemente, imaginaram que o homem moderno seria aquele ser que faz a unha, cabelo e sobrancelha, veste-se caprichosamente, usa roupas, malas e carteiras de grife, cuida da pele, tem uma barriga em que se pode lavar a roupa de baixo e é sensível, o tal metrossexual.

Fez sucesso no espelho, mas não entre a mulherada, que continua preferindo homem com pegada, nem tanto personagem de comercial de cerveja, nem tanto sujeitos que gastam mais tempo para se arrumar do que elas.

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 Há uns dias, escrevi aqui que sobre as mulheres que, depois de relacionamentos fracassados, não querem mais casar. A repercussão foi enorme: “Se o amor nos enlouquece, imagine a loucura que é ficar sem ele.” “Não façam do homem uma noite sem vento, um mundo sem gravidade. Parecemos tolos e infantis, controladores e insensíveis. Mas as amamos tanto. Acaba mesmo? Comece outro. Antes que a amargura substitua o brilho dos seus olhos. E a pieguice, a rima e as metáforas sejam extintas.”

Então, as belas e provocativas meninas do programa Saia Justa [GNT] decidiram debater a coluna. Até me entrevistaram, pedindo explicações.

Com descrença, se perguntaram para que casar. Confirmaram a minha teoria. Maitê Proença chegou a ironizar que seu sonho é encontrar um homem especialista em problemas do lar. Um mestre de obras? Gritei do lado de cá da tela: “E o romantismo?!”

OK, com o fim das utopias, dos heróis e ideais, até ele se diluiu. Afinal, sim, o amor perfeito, como um mundo sem injustiça, é uma utopia.

A grande revolução atual é a pessoal. A da superação, qualidade de vida, hedonismo. Muitas mulheres têm preguiça até de namorar. Ou medo de sofrer? Preferem o conforto do não envolvimento.

Mulheres não são carentes como os homens. Se viram bem sozinhas. Até sem sexo conseguem tocar a vida. Mas algumas leitoras anacrônicas me escreveram, indignadas com o programa.

Ângela Gomes: “Acho que o bacana na vida é se envolver, pois como li num muro pichado, ‘quem não se envolve, não se desenvolve’. Por isso, quero deixar aqui a minha indignação com o que as Saias Justas falaram sobre o marido de hoje. Comparar um homem a um micro-ondas, um liquidificador velho, e dizer que só valeria a pena estar com um homem que soubesse cozinhar, seria a mesma coisa que os homens se referissem a mulheres como alguém que é tão inteligente ou charmosa como uma enceradeira. Achei de muito mau gosto, feio e indelicada a forma como elas se referiram aos homens, e grosseira a forma como elas se referiram ao que você disse. Fiquei com vergonha. Então, Marcelo, saiba que não são todas as mulheres que pensam como elas, que mesmo já tendo casado ou não, com filhos ou não, ainda acreditam que vale a pena sim casar, viver com alguém, com perrengue ou sem, porque, de tudo que a gente vive, o que mais vale a pena mesmo é passar a vida em boa companhia.”

Já Rachel escreveu: “O que a gente quer é amor. Homem que manda torpedo no meio da reunião séria. O frio na barriga. O sexo urgente. O braço que arrepia quando encosta no outro na cadeira do avião. A respiração profunda. O nego que desce do palco para te seguir até o banheiro. O beijo na mesa de sinuca. O cara que inventa que o happy hour do hotel é no último andar e te cata no elevador. Quero aquele que me arrepia, que me faz ter frio no estômago, que me faz perder o raciocínio enquanto converso com ele. Ele não lê os escritores de que gosto? Dou livros de presente. Ele não conhece as músicas que ouço? Gravo de presente e aproveito para mandar recados amorosos.”

A pergunta não deveria ser qual homem precisamos buscar, mas como a mulher consegue conciliar a sua emancipação conosco, e nós com elas.

Continuemos homens com algumas diferenças. E que não se extinguem as mulheres apaixonadas. Lembrando Cazuza: “Do amor pouco sei e quase tudo espero, amando eu me acalmo e me desespero.”