Doria eleva tom do debate

Doria eleva tom do debate

Marcelo Rubens Paiva

03 Abril 2017 | 10h42

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Doria se exalta em resposta a colunista.

Em todos os governos, jornalistas experimentaram a sensação de estar no púlpito.

Não são poucos:

Alexandre Garcia, com Figueiredo.

Adilson Laranjeiras, com Maluf.

Antônio Britto, com Tancredo.

Leão Serva esteve com Serra e Kassab.

Ricardo Kotscho, Eugênio Bucci [colunista do Estadão] e André Singer, no começo do governo Lula.

A maioria volta para as redações com uma experiência única e considerável prestígio. E benéfica ao jornalismo.

Singer foi porta-voz de Lula, cargo subordinado à Secretaria de Comunicação Social e regulado pelo decreto nº 6377., até 2007.

Filho do grande economista Paul Singer, é atualmente colunista da Folha.

O cientista político e professor da USP, escreveu sábado, dia 1 de maio, a coluna “Candidatura de Doria é uma aventura desesperada”:

“A ascensão de João Doria no PSDB é sinal do desespero que tomou conta dos partidos tradicionais. Diante da aniquilação que a Lava Jato vem produzindo, surge todo tipo de ideias bizarras, sonhos pueris e ambições midiáticas.”

Afirma que Doria carece de um projeto nacional; FHC e Lula traíram o discurso ético, ao se aliarem ao inimigo, mas ao final, tiveram um bom resultado; FHC colocou no Brasil na rota de uma economia globalizada, e Lula fortaleceu a democracia, mirando na renda.

“Tendo se envolvido, ao que parece, no sistema corrupto de financiamento político vigente a partir de 1945, os irmãos-adversários [PT e PSDB] podem acabar ambos tragados pela Lava Jato. Mas se buscarem atalhos em lugar de uma renovação profunda, aí, sim, a porta será aberta para aventuras que nunca terminam bem.”

Análise equilibrada, isenta, exercendo seu direito de opinar, sob as bases do jogo democrático e da ciência política.

A resposta de Doria, estrela em ascensão de uma nova política despolitizada, assusta.

“Ao petista André Singer, quero dizer que não respeito suas posições e suas críticas, porque, depois de ter sido porta-voz do Lula, ele não tem credibilidade para fazer qualquer observação no plano político, muito menos a meu respeito. Vá passear em Curitiba, Singer.”

O prefeito de São Paulo demonstra que pretende elevar o tom do debate.

Inclui slogans exaltados de manifestantes polarizados no seu repertório; “Vá passear em Curitiba” é o novo “Vá pra Cuba!”.

Bota lenha na chama de um país dividido.

Se tem ambições maiores, precisa rever o modo de tratar opositores e a crítica.