Dicas para ‘O Mecanismo T2’

Dicas para ‘O Mecanismo T2’

Marcelo Rubens Paiva

03 Maio 2018 | 13h50

 

A série O Mecanismo é muito boa, bem dirigida, prende, tem personagens ótimos, atores então…

Mas tem um erro na estrutura e faltou malandragem nos roteiristas.

Se um jornalista quer denunciar algo e não quer parecer parcial (o recomendável, ético), coloca na boca de outros (as fontes) o que quer denunciar.

Em O Mecanismo, rola sarcasmo para todos os lados:

Aécio é retratado como um playboy sempre em botecos e cercado por belas mulheres, que diz, ou ler denúncias contra Lula/Dilma na revista Leia (Veja?): “Adoro esta revista, e ela me adora.”

É uma série importantíssima, e devemos ansiar pelas próximas temporadas, sim.

Deveria focar na investigação da corrupção que, afirma, é um câncer; lembra muito The Wire, a série pioneira que mudou o rumo da TV mundial.

Estreou numa hora péssima, em que o país está emocionalmente contaminado e politicamente rachado.

Diferentemente de alguns mais exaltados, não é apenas antipetista, é antitudo e todos, e com isso se aproxima do discurso que vê a democracia um entrave e suas instituições contaminadas.

O maior criminalista brasileiro, Márcio Thomaz Bastos, aparece como líder de um complô.

Juízes do STF são retratados por soltar presos e melar ações da PF/MP/1ª. Instância.

Lula e Dilma não são Pablo Escobar. Não deveriam aparecer como personagens.

Se Padilha fizesse o que fez acertadamente em Narcos, a série ganharia mais: deixar o real da política ser realpolitik; deixar as câmeras dos arquivos de telejornais falarem por si.

Nixon nem aparece em Todos os Homens do Presidente, filme que o investiga e o leva à renúncia

Mas Lula é Higino, chamado de Capo, aparece num apartamento suntuoso vazio de frente para o mar, tramando pelo celular, e usa falas de outros personagens, como “estancar a sangria”.

Eu, se fosse os roteiristas, deixaria a macropolítica de fora e ficaria na investigação da PF, MP, juízes, e no enquadramento de diretores de estatais, doleiros, empreiteiros e marqueteiros.

Que é a parte que sustenta a série:

Os dramas de Ruffo (Selton Mello), que aposentado investiga a seu modo a Lava Jato, Verena (Carol Abras), delegada da PF líder da operação envolvida com o promotor casado do caso, o doleiro Ibrahim (Kike Diaz), os empreiteiros JP Rangel (Leo Medeiros) e Ricardo Brecht (Orciollo Netto), e a marqueteira ambiciosa (Maria Ribeiro) têm arcos suficientes para longas temporadas.

E olha de quem estou falando: Selton Mello, Carol Abras, Kike Diaz, Leo Medeiros, Orciollo Netto, Maria Ribeiro… No timaço dos melhores atores do cinema brasileiro.

O dilema de Moro, digo Rigo (Otto Jr), na série um ciclista casado com uma mulher que não gosta de Curitiba, poderia ganhar contradições: persegue apenas governantes e aliados, e ignora a oposição; a tortura psicológica, jogar presos em situações de abandono, para forçar a delação, é correta?

Os diálogos por vezes são recheados de clichês e utiliza expressões do noticiário, como “nunca antes na história do Brasil” ou “se denunciar, a República cai”. Nem deveria.

Criou bons diálogos. Como:

– Não sou seu inimigo – diz o promotor para a namorada.

– Não. É muito pior – diz a namorada, delegada da PF.

O Mecanismo ganhou muitos inimigos. Não precisava. Dá pra corrigir nas T2, T3…