Custo de campanha para presidente subiu 661%

Custo de campanha para presidente subiu 661%

Marcelo Rubens Paiva

14 Junho 2017 | 11h39

FILIPE ARAUJO/ESTADÃO

 

Não é baixa a inflação do voto no Brasil.

E, a cada eleição, ele tem uma valorização preocupante, que pode alimentar uma corrupção bilionária.

O custo do voto para presidente, por exemplo, subiu em quatro eleições, de 2002 a 2014, 661%. De Caixa 1 (dados oficiais).

É o que indica pesquisa inédita do Centro de Pesquisa e Economia do Setor Público (Cepesp), que descreve os valores médios gastos por voto dos eleitos em eleições entre 2002, ano em que os gastos de campanha começaram a ser publicados pelo TSE, e 2014.

 

 

A tabela mede a evolução do gasto declarado por voto pelos eleitos a cada cargo.

O custo do voto para presidente aumentou sete vezes de 2002 para 2016.

Pesquisadores do Cepesp, centro interescolar da FGV-SP, comparam o fenômeno à corrida armamentista da Guerra Fria.

Apesar de terem arsenais para destruírem um ao outro diversas vezes e levarem o planeta junto, o bloco americano e o soviético não paravam de investir.

Porque, se um parasse, ficaria desatualizado ou se sentiria inferiorizado.

Os gastos poderiam servir a outros propósitos. Mas a racionalidade individual foi substituída pela irracionalidade coletiva.

Faltou cooperação política: todos ficariam melhores se houvesse limite de armas, mas cada país acreditava que precisava investir o mesmo que seu adversário, para manter forças balanceadas (teoria do economista prêmio Nobel, Thomas Schelling).

O mesmo se aplica às eleições brasileiras.

A média de gastos declarados dos eleitos (Lula 2002, Lula 2006, Dilma 2010 e Dilma 2014) é a mesma dos derrotados (Serra 2002, Alckmin 2006, Serra 2010 e Aécio 2014).

Duas coligações gastam cada vez mais, criando uma rede de promiscuidade bilionária entre partidos e empresas.

E vê-se pelas delações recentes da Odebrecht e JBS: os que corrompem um bloco são os mesmos que corrompem seus adversários.

Para a Cepesp, “o esvaziamento da cooperação entre os atores políticos, cooperação sobre a qual se apoia a negociação dos conflitos em sociedades democráticas, levou os candidatos a uma corrida irracional por mais recursos de campanha”.

Os pesquisadores propõem uma reforma política cuja prioridade seria a redução do custo de campanhas, e não a mudança do sistema eleitoral, além de uma regulamentação sobre o financiamento das campanhas.

“Como a efetividade dos gastos de campanha depende do investimento relativo de seus adversários, se um partido aumenta seus gastos não há outra alternativa para o partido competidor que não seja aumentar também o investimento em gastos de campanha. Este processo se revelou insustentável e, diferentemente da corrida armamentista que terminou com a derrocada da União Soviética, o resultado da corrida eleitoral brasileira foi a destruição dos envolvidos refletida na generalização dos escândalos políticos que assolam o país”.

Leia os dados colhidos e a proposta dos pesquisadores Ciro Biderman, George Avelino e Arthur Fisch no site: