Criança “sexualizada” é obrigada a cobrir fantasia

Criança “sexualizada” é obrigada a cobrir fantasia

Marcelo Rubens Paiva

05 Dezembro 2017 | 09h31

 

O constrangimento que viveu Bárbara Poskus, professora da escola infantil do meu filho, e sua filha de três anos, coleguinha dele, retrata o momento em que o Brasil vive.

No país em que já teve Xuxa como Rainha dos Baixinhos, nudez na abertura de novela e do Fantástico, teledramas calientes, a pequena foi censurada por uma funcionária do Sesc 24 de Maio por estar de Ariel.


Quando a criança saiu do banheiro vestindo o top da fantasia de Pequena Sereia, a mãe escutou num “tom nada amigável”: “Ela não pode entrar de top. Ela tem que entrar com uma camiseta”.

A menina não entendeu direito e correu para dentro do banheiro.

A mãe perguntou se havia alguma norma escrita sobre vestimentas; ao redor, meninos sem camisa, bebês usando apenas fralda, garotas de maiô.

A funcionária argumentou dizendo que alguém poderia tirar uma foto dela.

A criança, que mora na região, não quis mais entrar no espelho d’água, onde sempre se molha, até em dias frios.

Encolheu-se no colo da mãe, procurando esconder ombros.

“Conversamos com outros funcionários, eu e minha irmã [Renata], porque ficamos revoltadas e tristes por ver a minha filha, tão pequena, ser tolhida em sua liberdade e constrangida, porque uma mulher adulta sexualizou uma criança de três anos…. Ai a gente fala ‘feminismo pra quê’? No dia de hoje, pra mim, é para que parem de sexualizar nossas meninas.”

Ao postar seu desabafo numa rede social, um representante do Sesc 24 de Maio ligou, pediu desculpas em nome da instituição e elucidou:

Não existe uma norma. O que existe é uma orientação para que as crianças não estejam de roupa de banho no espelho d’água, pelo simples fato de não ser uma piscina para fins de piscina, e sim um espelho d’água para fins de espelho d’água.

A mãe explicou que ela não estava de biquíni, era a princesa Ariel, e que nada justifica o constrangimento a que ela foi submetida apenas por estar com a barriga de fora.

O representante disse que o ocorrido é um importante indicador de que algumas diretrizes precisam ser revistas com os funcionários.

“Pode haver pedófilos em qualquer local, em qualquer ocasião. Pode ter um pedófilo no ônibus, pode ter um pedófilo na praça, pode ter um pedófilo na porta da escola, pode ter um pedófilo dentro da sua casa… E a criança tem que ser livre pra ser criança em todo e qualquer lugar. QUEM NÃO TEM QUE ESTAR LÁ É O PEDÓFILO. É o pedófilo que deve ser identificado, ter sua liberdade cerceada, barrado e constrangido se for o caso”, desabafa a mãe.

“Estou falando tudo isso porque eu luto por um mundo onde minha filha, que ainda tá longe da puberdade, possa andar com a barriga de fora se quiser, pelo simples fato de ela querer. Ela está certa. Quem está errado é quem sexualiza a barriga de fora. Que ela não seja sexualizada, ainda tão pequena, diferentemente dos meninos que podem circular sem camiseta. E que na puberdade ela também possa usar roupas curtas no calor sem ter seu corpo sexualizado. E na vida adulta. E que ela simplesmente S E J A R E S P E I T A D A. Não quero que ela tenha medo de sair de roupa curta num dia de neve ou de calor, simplesmente por ser mulher.”

Obrigado, Bárbara.

Mandou bem.