Corintianos à espera do navio negreiro

Corintianos à espera do navio negreiro

Marcelo Rubens Paiva

24 Outubro 2016 | 12h09

torcida-corinthians-maracana-policia-reproducao-eimaxx-750

 

Quem deu a ordem?

Esta é a maneira de identificar os maus?


Separar os brigões dos torcedores de verdade?

Como podemos reviver esta cena?

Como deixamos ela acontecer?

Como não superamos estágios da Civilização?

É assim que se combate a violência?

Esta é a resposta do Estado?

O Brasil não se liberta do seu passado?

Ela não foi abolida?

Para que servem os estatutos as leis a ética o bom-senso a(de) agentes do Estado?

Que Estado é esse que não concilia, agride?

Vai ficar por isso mesmo?

Liberaram os assassinos de Carandiru. E estes policiais indignos serão reexaminados, julgados e punidos?

Generalizar é fazer justiça?

Se eu estivesse entre eles, e costumo me sentar entre eles, estaria ali?

Se meus filhos, sobrinhos, amigos, que costumam se sentar entre eles, estivessem ali, eu não conseguiria manter a serenidade, como muitos pais, irmãos, mães e filhos, ontem.

Isso nunca vai acabar?

Ri, satanás Castro Alves [Navio Negreiro]:

 

Era um sonho dantesco… o tombadilho  

Que das luzernas avermelha o brilho.

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros… estalar de açoite…  

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar…  

Negras mulheres, suspendendo às tetas  

Magras crianças, cujas bocas pretas  

Rega o sangue das mães:  

Outras moças, mas nuas e espantadas,  

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs!  

E ri-se a orquestra irônica, estridente…

E da ronda fantástica a serpente  

Faz doudas espirais …

Se o velho arqueja, se no chão resvala,  

Ouvem-se gritos… o chicote estala.

E voam mais e mais…  

Presa nos elos de uma só cadeia,  

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece,  

Outro, que martírios embrutece,

Cantando, geme e ri!  

No entanto o capitão manda a manobra,

E após fitando o céu que se desdobra,

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar!…”  

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais…

Qual um sonho dantesco as sombras voam!…

Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

E ri-se Satanás!…  

 

navio-negreiro massacre-carandiru-brasil car