Convicção de Marcela é melhor que de Temer

Convicção de Marcela é melhor que de Temer

Marcelo Rubens Paiva

09 Março 2017 | 11h12

F61U2188.JPG BRASÍLIA DF BSB 08/03/2017 POLÍTICA - MICHEL TEMER / DIA INTERNACIONAL DA MULHER Presidente Michel Temer e sua esposa, a primeira dama Marcela Temer na Cerimônia de Comemoração pelo Dia Internacional da Mulher no Palacio do Planalto em Brasilia FOTO DIDA SAMPAIO / ESTADAO

FOTO DIDA SAMPAIO

 

“Tenho convicção do que a mulher faz pela casa”, disse Temer ontem no Dia Internacional da Mulher.

A convicção de Temer não faz sentido


Entendemos o que ele quis dizer, graças ao conjunto da obra.

Mas a frase infeliz e inapropriada, no sentido literal, não faz sentido.

Convicção é um substantivo feminino. Vem do latin convictio.onis.

Convicção é crença, certeza, convencimento pelas provas apresentadas.

Exemplo: Tenho convicção da sentença que vou expedir.

Exemplo 2: Tenho convicção de que o Corinthians ganha hoje.

Temerismo: “Tenho certeza do que a mulher faz pela casa”??!!

Convicção pode também ser princípio, ideal.

Exemplo: Tenho convicção dos meus princípios marxistas.

Temerismo: “Tenho princípio do que a mulher faz pela casa”??!!

Será que ele quis dizer respeito, admiração?

Temer errou de substantivo, o timing [sua mulher, apenas ela, deveria ter falado], e precisa rever suas convicções.

Enquanto milhões estavam nas ruas, no mundo todo, para exigir as mesmas oportunidades no mercado de trabalho e equiparação salarial, Temer à frente de seu ministério branco e masculino [exceção à secretária de Direitos Humanos] ressaltava a importância da figura feminina na formação dos filhos, “seguramente” de responsabilidade da mãe.

E quanto mais falava, mais ficava seguramente evidente que suas convicções estão ultrapassadas e não fazem mais sentido no mundo de hoje e do debate de gênero.

“Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela, do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher”.

Por dez minutos, despejou sua limitação.

Mulher é “capaz de indicar os desajustes de preços em supermercados”, “identificar flutuações econômicas no orçamento doméstico”, por isso tem participação de relevância na economia do país.

Por isso?

“Ninguém é capaz melhor de identificar eventuais flutuações econômicas do que a mulher, pelo orçamento doméstico maior ou menor”.

Deixou o hit para o final: “Tudo isso [queda da inflação] significa empregos e significa também que a mulher, além de cuidar dos afazeres domésticos, vai ver um campo cada mais largo para o emprego”.

Melhor se saiu sua mulher, Marcela Temer.

Depois dos afazeres domésticos, de passar pelo supermercado e conferir os preços, e de cuidar do filho, teve dois minutos para dizer que a sociedade precisa reconhecer os múltiplos papéis desempenhados pelas mulheres, que vivem uma dura e desigual realidade, e que o Estado tem o dever de acabar com “a intolerância que afronta a realidade das mulheres”.

Creio que seu marido, acomodado por suas convicções, refletindo sobre os índices econômicos apontados por sua equipe masculina, que rege a economia, não a escutou.