Começo do Fim do Mundo recomeça

Começo do Fim do Mundo recomeça

Marcelo Rubens Paiva

23 Novembro 2017 | 11h04

ROLANDO DE FREITAS/ESTADÃO CONTEÚDO

 

A primeira edição rolou em 1982.

Não se sabia que faria história.


O Começo do Fim do Mundo foi um festival punk para selar a paz entre as gangues punks espalhadas pela Grande São Paulo.

Punks lotavam shows em toda parte.

Mas eram completamente desconhecidos pela imprensa, gravadoras e cadernos culturais.

Suas bandas (cada gangue tinha uma banda) se revezaram no palco no final do corredor do recém-inaugurado Sesc Pompéia.

Usavam o mesmo equipamento, emprestado pela banda Inocentes.

Deu tudo certo no sábado. Antônio Bivar lançou o que se tornaria um clássico da época, O que é Punk?, da popular coleção Primeiros Passos, da Brasiliense.

Discos eram vendidos e trocados.

Pôsteres, camisetas, expostos.

Mas no domingo, não teve jeito. O pau comeu.

Gangues se perseguiram pelo bairro. A Tropa de Choque foi chamada. O Sesc invadido.

Saiu em toda a imprensa e em fanzines internacionais.

Quanto as bandas, muitas delas foram contratadas pelas grandes gravadoras ou lançaram discos independentes.

Algumas, como Cólera, faziam mais sucesso na Alemanha do que no Brasil.

Um vinil duplo será relançado neste final de semana para celebrar os 35 anos do evento com músicas inéditas gravadas naquele mesmo show.

Acompanha um livreto de 36 páginas com fotos do americano Paul Constantinides, cópia do pôster original e texto do Bivar, organizado pela NADA NADA DISCO

O disco será lançado sábado, no dia 26 de Novembro.

Um show da primeira banda punk do Brasil, Restos de Nada, está prometido.

Reeditando amanhã, sexta, o primeiro show punk que rolou no Brasil, organizado por Kid Vini há 40 anos  na zona norte, num porão abandonado.

 

 

A filosofia do NO FUTURE volta com tudo.

 

 

Aqui vai trecho do Livro Meninos em Fúria que escrevi com Clemente:

 

A ideia de mais paz e menos tretas entre os punks saiu da loja do Fábio, com incentivo do Bivar. Vamos fazer um grande festival. Callegari e Meire foram de trem ao ABC e Clemente, para as quebradas mais obscuras e temerosas de São Bernardo. Foram aliciar bandas punks para o grande festival que juntaria todas as bandas em atividade e rolaria nos dias 27 e 28 de novembro de 1982, no recém-inaugurado Sesc Pompeia: o primeiro festival punk, nomeado de O Começo do Fim do Mundo. Dessa vez, a cobertura da imprensa seria ampla. Ampla até demais. O objetivo era um pacto de paz entre as facções rivais de punks da capital e do ABC, que se envolviam em brigas cada vez mais sangrentas. Vamos nos unir, o punk precisa viver, o punk está vivo, o punk é maior do que desavenças bairristas.

Patrocinado pela Fotoptica, que também promovia festivais de vídeo, os shows rolariam sábado e domingo, entre 14h e 18h, no fundo da antiga fábrica. Nos primeiros salões, exposições. Era a oportunidade de Bivar lançar o então já pronto O que é o punk?. Deu tudo certo no sábado. Bivar lançou o livro, que trazia o manifesto. Fabião expôs produtos da Punk Rock, vendeu camisetas, discos, coisa e tal. Tinha banda que não tinha instrumento; tocavam com o baixo do Clemente e o equipamento dos Inocentes.

TVs, rádios, jornais… A imprensa deu uma tremenda cobertura ao evento. Especialmente a Folha, cujo caderno cultural era editado por Matinas Suzuki, velho simpatizante da Libelu, cara antenado que se dizia adepto mais da liberdade que da luta. Matinas participou das manifestações estudantis contra a ditadura de 1976, 1977, 1978, e deve ter se perguntado, surpreso, como todos que leram suas reportagens na Ilustrada: mas tem punk no Brasil?

Lá fomos nós, todos interessados em música, cultura, em revolução, ao Sesc Pompeia.

No sábado: Dose Brutal, Psykóze, Ulster, Cólera, Neuróticos, M-19, Juízo Final, Fogo Cruzado, Desertores e Inocentes.

No domingo: Suburbanos, Passeatas, Decadência Social, Olho Seco, Extermínio, Ratos de Porão, Hino Mortal, Estado de Coma, Lixomania e Negligentes.

Bandas de São Paulo e do ABC. A garotada gritava pelos corredores: “Foda-se o capitalismo!”. Bandas abriam e gritavam palavras de ordem. Inocentes gritou no microfone: “Viva o proletariado brasileiro!”. Todos se diziam contra o sistema. E, a qualquer momento, uma pancadaria entre gangues punks podia rolar a rampa de paralelepípedo abaixo. Muitos estavam armados. Clemente lembra, orgulhoso:

— Todo mundo, todas as gangues, todas as bandas. Foram dançar as músicas. Umas dez bandas tocaram com meu baixo, umas dez outras com a guitarra do Callegari. Os caras não tinham instrumento. Amplificador era nosso, equipamento era tudo dos Inocentes. Puta clima legal.

No domingo, quando a coisa estava para acabar em paz, Indião subiu num poste, lá na rua, não dentro do Sesc, e fez um discurso bélico:

— Vocês não se odeiam? Por que não resolvem agora as tretas?

Já estavam entre eles os Carecas do Subúrbio, gangue nova, não fascista, que tinha um movimento próprio, de esquerda, o movimento dos skins, o Punk dos Skins; curtiam ska, reggae, o street punk, diferentemente do punk original, mais cantado, com mais harmonia. Os Carecas tinham treta com os Punks da Morte, que andavam com os da Carolina. E aí começou.

— Por uma época, morei na mesma rua que o Sé e o Tikão, que eram da gangue Punk da Morte. Anos depois, os dois morreram. O Sé de aids, acho que de injetar. Ele tomou várias facadas dos Carecas, ficou em coma, era um puta cara gente boa. Saiu do hospital, era todo magrinho, mas andava com um .38. Ele virou o diabo. A gente andava tudo meio junto, punks da Morte e da Carolina. E aí, quando saiu essa treta, tinha uns trezentos punks brigando. Já era uma guerra campal. Briga de torcida de futebol.

A vizinhança reclamou. Polícia chegou às 16h10 do domingo. Entrou no Sesc. Levaram som e câmeras, enquanto o pau comia na rua Clélia. Punks cobravam broncas. Pancadaria. A imprensa lá. O tumulto se generalizou pelo bairro. A turma dos punks do ABC, acuada, correu para a igreja evangélica em frente, pediu abrigo ao pastor, que fazia um culto. A nuvem de bomba de gás lacrimogênio começou a entrar na igreja. Fecharam as portas. Fiéis e punks lá dentro. Chegou a Tropa de Choque. De dentro, os punks fecharam o portão vermelho de entrada do Sesc, uns subiram no muro, mas a polícia entrou. Aquele momento foi o ápice e o começo da queda. A Folha noticiou: “Festa dos punks termina com prisão”. “Prisões, pancadarias e protestos — assim terminou o festival punk, com presença de jovens que ‘tumultuaram o ambiente’, segundo os moradores que chamaram a PM.”

O Sesc estava sob comando de José Papa Júnior, e seu nome aparecia nos cartazes oficiais do Festival O Começo do Fim do Mundo. Logo José Papa Júnior, conhecido como Zizinho, que comandou a Federação de Comércio de São Paulo de 1969 a 1984, tentou ser senador pelo PDS, herdeiro da Arena, antigo partido governista na ditadura. Foi cotado para vice-presidente de Collor. Sua família era dona do banco Lavra, concessionárias de veículos, de imóveis, fazendas e uma distribuidora de ferro e aço, a Cibraço. Em abril de 2000, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial no Lavra: identificou um rombo de 30 milhões de reais. O grupo ruiu. Os Papa foram acusados de lançar títulos podres no mercado internacional e de depositar em contas na Suíça dinheiro de caixa 2. Zizinho se afastou do banco.

Se Papa enfrentava problemas na justiça, seu Sesc bombava. Entre 1983 e 1984, o Sesc Pompeia abrigou o programa de TV Fábrica do Som, apresentado pelo poeta, videomaker e artista multimídia Tadeu Jungle. Exibido aos sábados à tarde na TV Cultura, o Fábrica deu o tom do que estava por vir: uma geração que saiu do coma no Trate-me leão e engrenou no punk, saudava o novo rock. Foi a primeira vez que bandas como Capital Inicial, Ultraje a Rigor, Paralamas do Sucesso e Titãs apareceram na TV. Jungle se lembra:

— No Fábrica do Som podia tudo, tínhamos liberdade total. Foi uma loucura aquele programa, nunca mais se fez algo igual. Poetas concretistas com Caetano, o pessoal do Asdrúbal, bandas de rock, punks, estudantes… Durou dois anos. Tinha um quadro em que as pessoas podiam subir e falar o que quisessem. Era redemocratização, queríamos dar voz à juventude. No último programa, convoquei uma menina para subir no palco e disse: “Pode fazer o que quiser”. Ela tirou a roupa. Acabou o programa ali.

Foi muito para a TV Cultura e para o Sesc. E, em novembro de 1982, mal sabia Papa Júnior que em suas instalações ocorria um dos eventos mais divulgados pela mídia underground do mundo. Tinha correspondente até do Washington Post. Maximum Rock’n’Roll, principal jornal underground americano, deu páginas e páginas sobre o festival.

Clemente conta:

— Tinha muita gente. Porque foram os punks e o pessoal ver os punks. Foi a descoberta. Ninguém achava que tinha disso no Brasil. A gente era tudo moleque. Era uma urgência, saca? Eu preciso fazer alguma coisa, eu quero tocar, pra botar pra fora uma coisa que estava reprimida. Eu mesmo acreditava que o movimento punk era a vanguarda do movimento revolucionário.