Chico é artista, não machista

Chico é artista, não machista

Marcelo Rubens Paiva

22 Agosto 2017 | 12h32

 

O grande problema dos “ismos”: retratar um personagem como o todo.

Se um autor cria um homofóbico em sua obra, ele não é homofóbico, ele pode sim retratar o absurdo da homofobia, criticá-la.

Se um autor retrata machistas que se perguntam num bar “e aí, comeu?” e mostra no final que tal discurso é decadente, falso, da boca pra fora, atrasado, machistas, não está defendendo seus personagens, muito menos o machismo, mas retratando uma era, desvio cultural, que deve se encerrar.

Chico Buarque agora é acusado de ser machista pelo verso da nova música, Tua Cantiga:

Quando teu coração suplicar

Ou quando teu capricho exigir

Largo mulher e filhos

E de joelhos

Vou te seguir

O artista também autor de ficção retrata o amor de um amante por uma mulher casada. Também casado, espera sua amada se separar, para estar com ela para sempre. Escuta queixas e consola.

O artista não defende que casamentos devem ser abandonados se uma paixão secreta se separa.

Nem a união sem amor pleno.

Conta a história secreta de um cara, PERSONAGEM, que ama a amante, que para sua infelicidade é casada, mais do que tudo, e a espera, torce, implora pala ela se separar.

Retrata um personagem. Podemos gostar dele ou não.

Podemos justificar seu crime, como em Crime e Castigo (Dostoievski).

Afinal, é injusto com a esposa estar com ela e amar outra.

Para este PERSONAGEM, como para algumas pessoas, o romance nunca se completa, como na obra do “racista” Machado de Assis, do “sexista’ Flaubert, do “direitista” Nelson Rodrigues, do “pedófilo” Nabokov.

Que se julgue e se leve o personagem de Chico ao banco de réus.

Nunca o autor da obra de FICÇÃO.

Escrevi a peça E aí, Comeu?, enquanto morava numa universidade da Califórnia, no berço do neo-feminismo.

E a montamos no final dos anos 1990. O público entendeu a ironia da peça, que fez uma carreira de sucesso.

Ganhamos prêmios (inclusive melhor texto), ela teve prestígio de público e crítica, gerou debates (o papa junguiano Carlos Byington levou seus alunos, que debateram com ele o conteúdo).

O filme seguiu linha diferente.

Tem cena que até discordo (quando os personagens tratam mal umas meninas no bar).

Mas, nas entrelinhas, está lá o debate.

Hoje sou chamado de esquerdomacho por ter escrito uma peça chamada E aí, Comeu?, que poucos dos que me xingam viram ou leram.

Já vi um suite que não tem o hábito de ouvir o outro lado e sempre apresenta apenas uma versão dos fatos me incluir numa lista com Gregório Duvivier (neto de Byington), Xico Sá e até Jean Wyllys da “esquerdomachia”.

Que se leve o PERSONAGEM ao banco de réus.

Nunca o autor da obra de FICÇÃO.