capitalismo doidão

capitalismo doidão

Marcelo Rubens Paiva

23 Outubro 2012 | 10h42

 

O que mais se ouviu nos debates entre OBAMA e MITT ROMNEY foi o “crush” [achatamento] da classe média.

OBAMA fala muito em trazer de volta para a AMÉRICA, “o melhor país do mundo”, os empregos manufaturados.

É o mote da sua campanha. Como fará? Mistério…

Traduzindo.

No País que inventou a linha de montagem, o avião, os televisores, que dominou o mundo com sua indústria de eletrodomésticos, carros, navios, numa segunda revolução industrial, possível graças ao petróleo, energia nuclear e carvão baratos, mão de obra qualificada, consumo interno aquecido e esforços de guerra, as fábricas sumiram.

Muitas se mudaram pro México.

Nos anos 1990, os nerds ficaram surpresos quando a MICROSOFT mudou a fábrica que empacotava CDs para além da fronteira do Rio Grande, para assumidamente fugir das leis ambientais.

Na fronteira, aliás, se instalaram como dominós as “empacotadoras”.

Ao lado das cercas e holofotes que barram os ilegais, se ergueram fabriquetas da maioria das corporações americanas.

Depois, levaram tudo pra CHINA, TAILÂNDIA, MALÁSIA, ÍNDIA, para explorar uma mão de obra barata, se livrarem dos sindicados, da lei ADA de acessibilidade aos trabalhadores deficientes, do rigor da receita federal.

Da APPLE à NIKE, todas mudaram sua linha de produção para países que toleram o trabalho infantil.

Nos EUA ficaram as sedes, o financeiro, as ações, os acionistas, a especulação, os CEOs e seus bônus, a tecnologia, a informação, Wall Street, os fundos de pensão, o parque acadêmico de altíssimo nível e os bancos de dados.

Ficaram os que mandam: the big bosses.

 

 

Curiosamente, assim que se encerrou o debate presidencial americano capitaneado pela CBS ontem, transmitido da Flórida por todas as redes, o TELECINE começou a exibir A GRANDE VIRADA, filme de 2010 que nem foi pro circuito – pulou a etapa da exibição em cinemas e chegou direto em homevideo e TV paga.

O tema?

A ganância do mercado e a crise do capitalismo mundial.

A produção de US$ 15 milhões que deu prejuízo [faturou US$ 4,4 milhões] explica por que os antigos impérios industriais não saem do atoleiro que eles próprios criaram e os motivos da crise financeira global.

JOHN WELLS, diretor e roteirista, em seu primeiro longa, conta a história do alto executivo de Boston, Bobby (Ben Affleck), que dirige uma Porsche e é gerente de vendas de um estaleiro, que é demitido pois a empresa decide cortar custos, mão de obra, vender fábricas e especular suas ações no mercado.

Seus chefes Phil (Chris Cooper) e Gene (Tommy Lee Jones) também são demitidos.

Não tem emprego pra ninguém.

Bobby só encontra refúgio no cunhado, um mestre de obras (Kevin Costner). Tem que arregaças as mangas, carregar sacos de cimento, pra trazer leitinho pras crianças.

As fábricas da Nova Inglaterra estão abandonadas.

Tudo se mudou para a ÁSIA.

Não há peso na consciência dos executivos. Querem que suas ações aumentem de preço, para viajarem com suas esposas em jatinhos particulares, jantarem em restaurantes de 500 dólares, e que o CAPITAL gire sem que se precise apertar um parafuso ou soldar uma chapa de aço.

Curiosamente, A GRANDE VIRADA (The Company Men) é produção do Reino Unido.

Outro país que perdeu seu parque industrial [nem carro mais fabrica] e vive dos fundos de investimentos árabes, turbinas, exploração de petróleo danosa ao meio ambiente, mostarda forte e rock & roll.

Fazia sentido.

Transferiram as poluentes, barulhentas e gastadoras fábricas para os países em desenvolvimento, e foram jogar golfe, fazer botox, engordar em fast-foods e curtir cruzeiros do Caribe.

Mas se esqueceram de quem dá sustentação a todo este luxo e estilo de vida, morre em guerras e sua em bicas por uma casinha modesta, 2 carros na garagem e filhos com diploma: a classe média.

+++

Uma coisa que não se entende é o número grande de indecisos nas eleições americanas para Presidente. Aqui, tudo bem, não existe debate político. Para os extremos da periferia, Celso Russomano e Ratinho Jr. podem ser bons candidatos, e na semana seguinte não mais.

Porém, aqui o voto é obrigatório, lá, opcional.

Se lá cara está em dúvida, fica em casa aparando a grama do jardim.