bullying municipal – o guardinha preguiçoso

bullying municipal – o guardinha preguiçoso

Marcelo Rubens Paiva

04 Junho 2013 | 10h34

 

Uma das coisas que me dão prazer secreto: ver carro parado em vaga de deficiente, sem a licença, com uma multa no para-brisa.

Já cheguei a ligar para DSV, chamar guardinhas, dedurar infratores, fotografar e postar em redes sociais.


Quando militávamos e lutamos pela implementação de normas e leis, andávamos com um flyer, que simulava uma multa, procurando educar o mal-educado.

No começo, lá por 1996-1997, a Prefeitura demorou para se mexer. Os guardinhas não sabiam se multavam ou não. Foram treinados.

Rolou entre nossas ONGs de deficientes um plástico, para colarmos nos vidros dos motoristas que desrespeitavam as vagas. Eu achava agressivo demais. Para mim, a advertência constrangia o suficiente.

Eu andava com um bloco na bolsa e vivia colocando a advertência em carros sem licença.

Por experiência própria, mais da metade das vagas de deficiente é ocupada por não deficientes.

A existência delas tem uma explicação geométrica: o cadeirante precisa de mais espaço entre os carros para encaixar sua cadeira de rodas no momento de passar do assento para ela.

Sou o primeiro a ter a licença. Uma homenagem da PREFEITURA, pois fui eu quem deu a ideia e fiz lobby na Prefeitura, depois de morar os EUA e ver como lá funcionava.

Numa cerimônia pomposa na PRAÇA BENEDITO CALIXTO, me deram licença 000001. Agora, com a renovação [a cada 5 anos], meu número subiu.

A licença do Rio não valia em São Paulo, e vice-versa.

Lá fomos nós militarmos mais uma vez. Visitarmos Brasília e acionarmos nossos contatos.

No Governo LULA, ela foi federalizada. Padronizada. Nesse ponto, passamos os EUA: cada Estado lá tem a própria licença, e o cadeirante que viaja passa por um perrengue e tem que visitar o DSV local.

A licença não é fixa, para o carro, mas para o cidadão. Claro.

Se o cadeirante sai com o carro do pai, de um amigo, da namorada, como passageiro, pode parar nas vagas delimitadas. Leva a sua licença e deixa no para-brisa.

Não é o carro que tem o direito, mas o cidadão.

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Estranhamente, comecei a ser multado, mesmo tendo a licença.

Não foi uma. Foram 3 vezes. Em vagas que me são familiares. Sim, nos horários em que parei. As placas dos carros que uso estão corretas. Os carros estão no meu nome. A licença, tirada na Prefeitura, idem. Estou lá cadastrado. Não checaram.

 

 

Foi na terceira vez que vi o problema.

A viatura, uma DOBLÔ amarela e branca, encostou ao lado do meu carro, numa vaga da AL. TIETÊ, aquela ali do Bar Balcão. Vi o guardinha, porque eu estava na calçada papeando, até acenei para ele e disse: “Esse aí é meu, chefe, tem a licença no para-brisa.”

Tempos depois, a multa chegou. A terceira.

O sujeito não saiu do carro para verificar. Nem chovia, nem estava frio: verão.

Me multou, exercendo seu dever, acomodado numa preguiça municipal!

O mais curioso. Recorri, enviando fotos, cópias do documento, da licença. E perdi.

 

 

Bullying municipal, defesa negada.

Preguiça e má vontade. Da máquina cara criada para nos defender.