Brasil, potência ou anão diplomático?

Brasil, potência ou anão diplomático?

Marcelo Rubens Paiva

12 Abril 2018 | 10h47

 

Éramos o país do futuro.

Fomos já considerados o Colosso do Sul, segundo Noam Chomsky.

Potência diplomática, nos chamou Helmut Khol, ex-chanceler alemão.

Anão diplomático, nos chamou Yigal Palmor, em 2014, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, quando o governo Dilma, com tropas em missão de paz no Haiti, quis interceder em favor dos palestinos.

Segundo professor em Segurança Internacional Sérgio Luiz Cruz Aguilar (Unesp), o Brasil se aproximou da última opção.

Especialmente agora em que militares se voltaram a opinar sobre a crise institucional interna.

Em novembro de 2017, o Departamento de Operações de Paz da ONU decidiu aumentar o efetivo da operação de paz na República Centro Africana, em guerra civil desde 2012, para proteger civis e cortar rotas de suprimentos dos grupos armados.

 

 

O Brasil foi convidado para enviar uma tropa, seguindo o bem-sucedido modelo haitiano.

Foi um pedido do próprio Conselho de Segurança, clube fechado em que o Brasil lutou tanto para ter um assento.

Enrolamos, enrolamos, enrolamos e… Refutamos.

Chegamos a enviar militares, diplomatas e funcionários do governo ao Quartel General da ONU, em Nova Iorque, e militares e diplomatas em missões de reconhecimento na República Centro Africana.

O Itamaraty se engajava politicamente. O Ministério da Defesa e das Forças Armadas colocaria a ação em prática.

Chomsky lembra que deveríamos voltar ao papel de protagonista, como na época de Celso Amorim, quando “o Brasil se tornou provavelmente o mais respeitável ator do cenário internacional”.

Agora em abril o Brasil, alegou problemas financeiros internos e recusou o convite, o que repercutiu negativamente nas Nações Unidas.

“A questão da intervenção federal no Rio de Janeiro, com utilização das Forças Armadas, não deve ser utilizada como justificativa para o não engajamento em operações de paz. Durante os 13 anos que o país manteve tropas na operação de paz da ONU no Haiti, desempenhando papel de protagonismo, vários eventos ocorreram no Brasil sem prejudicar essa atuação externa. Logo após o terremoto de 2010, mantivemos dois batalhões naquele país enquanto várias operações de ‘Garantia da Lei e da Ordem’ foram realizadas na capital carioca. Durante anos, as forças armadas, especialmente o Exército, mantiveram tropas ocupando morros no Rio de Janeiro, além de ter atuado no Espírito Santo, realizado ações cívico-sociais e de segurança em eleições, dentre outras, em diversos locais do país. Além disso, nesse mesmo período ocorreram a Copa do Mundo e as Olimpíadas, eventos que demandaram o emprego de efetivos militares consideráveis, sem que essas ações fossem utilizadas como justificativa para que o Brasil se retirasse do Haiti. Nesse sentido, as Forças Armadas, e principalmente o Exército que carrega o maior peso da participação em operações de paz, já demonstraram capacidade de atuação em frentes diversas ao mesmo tempo”, explica Aguilar.

Para o acadêmico do campus da Unesp de Marília, a decisão foi política.

E mostra um racha entre Planalto, Itamaraty e Defesa.

“A decisão vai contra uma das linhas que norteiam a política externa do país de fortalecimento das organizações internacionais, especialmente a ONU. Também fortalece a percepção, que já vem de alguns anos, de haver uma desconexão da política externa brasileira em relação à segurança internacional.”