Baderna

Baderna

Marcelo Rubens Paiva

12 Agosto 2009 | 12h29

A exposição sobre a ANISTIA, no antigo prédio do DOPS, em São Paulo, vale uma visita.

Conta-se a história dos movimentos sociais que pediam o fim da ditadura e lutavam pela anistia política. Há uma cronologia precisa dos fatos relevantes. Pode-se até entrar numa das celas em que presos políticos ficaram trancados.


cela do dops


está preso, comunista terrorista



espaço para o banho de sol de 1 hora

Há trechos em áudio da emblemática missa de Sétimo Dia da morte de Wladimir Herzog, momento de virada no combate à ditadura, quando a sociedade civil se uniu, enfim, numa mesma luta, e houve um racha dentro do regime, que culminou na sua queda.

Estive, com meus 15 anos, nessa missa, um protesto político realizado dentro da Catedral da Sé, já que estavam proibidas as manifestação de rua.

Não há muitas fotos e filmes do período. Expliquei as razões para a garotada em volta.

Havia um pacto entre os manifestantes e os fotógrafos. Tais registros poderiam ser utilizados pelos aparelhos de repressão, para identificarem os que chamavam de subversivos. Aliás, quem fotografava era a polícia. Inclusive havia uma equipe do DOPS filmando dentro da igreja, rostos em close, para seus arquivos. Por onde andará este filme?

No mais, a maioria das emissoras de TV não aparecia nessas manifestações, já que ainda apoiava o regime.

Há registros de que a resistência atuava fora do Brasil e da importância da imprensa alternativa, já que a grande imprensa estava silenciada pela censura ou por convicções ideológicas.


capas dos jornais alternativos


cartaz da anistia denunciando os desaparecidos [meu pai está nele]


cartazes estrangeiros apoiando a luta no brasil

Procurei visitar a sala em que minha irmã Veroca, líder estudantil, foi presa e interrogada. Sala em que minha mãe deu uma dura no delegado de plantão. Escolada, a velha não temia ninguém.

Porém, desmontaram parte das instalações. Inclusive a famosa sala do delegado Fleury, em que havia na parede um brasão do ESQUADRÃO DA MORTE, e, em outra, fotos riscadas com xis dos “subversivos” eliminados pessoalmente por ele.


folheto enviado pelo ccc ao pasquim

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Amanhã, quinta, tem show da banda 3 NA MASSA, que lançou o melhor CD brasileiro do ano passado- e faz um show surpreendente-, integrantes da NAÇÃO ZUMBI que convidaram cantoras e atrizes [Karine Carvalho, CEU, Leandra Leal, Thalma de Freitas, Pitty, Nina Beker, Alice Braga, Simone Sploladore, entre outras] para cantar sobre dilemas e lamentos femininos.

Show na Rua Augusta, território de baderneiros depravados e, como comentaram no post anterior, da “juventude transviada”. Sinta-se um James Deans e apareça.

Venha fumar na calçada, com stripers em trajes íntimos nas portas das boates, e jogar a bituca no chão, já que estão proibidos os cinzeiros.

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E hoje tem UM ANO de CURTA NA PRAÇA, projeto organizado no ESPAÇO PARLAPATÕES, em que se exibem curtas e oferecem bebida de graça.

Se a tropa de choque do PSIU, que esteve lá e invadiu com truculência no último sábado, deixar, mostraremos um pouco da cultura produzida nessa cidade.

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Alguns leitores se revoltaram com o meu post anterior. Mais de 230 comentários. Muitos me criticaram. Declaram guerra contra a vocação boêmia e cultural de São Paulo. Querem-na quieta, bem comportada, limpa e saudável.

Me chamaram de metrossexual, baderneiro, egocêntrico. Um leitor disse que eu só fui publicado porque sou “aleijado”.

Apoiam a lei antifumo [que, por sinal, também apoio] e as ações de Kassab quanto à lei do silêncio [que, por sinal, também acho justa, se for bem aplicada].

Um leitor sentiu falta das ações da ROTA.

Muitos reclamam que acordam cedo para trabalhar, enquanto uma minoria faz baderna nas ruas, atrapalha o sono dos bons cidadãos.

Outro leitor disse que São Paulo não deve ser a baderna que é o Rio e Salvador.

Um leitor ficou indignado com a foto do Movimento Integralista para ilustrar o post e a denúncia do ocorrida na festa Gambiarra, no último domingo. Explico.

O integralismo é um movimento brasileiro de inspiração nazifascista.

A doutria do nazismo defendia a uniformização do indivíduo.

Pregava a limpeza da raça e a intoleância contra as minorias.

Acreditava no super-homem saudável, preservava os bons valores familiares.

E apenas um Estado forte e repressor garantiria seus princípios.

Seres viciados e com deficiências deveriam ser banidos.

O homem se espelhava na perfeição física dos exemplares da Grécia antiga.

Alcoólatras, fumantes, drogados devem ser execrados- Hitler, por sinal, foi um dos primeiros grandes antitabagistas.

Nada deve estar acima da lei do Estado

Está no programa do Partido Nacional Socialista Alemão:

O primeiro dever do cidadão é trabalhar, física ou intelectualmente. A atividade do indivíduo não deve prejudicar os interesses do coletivo, mas integrar-se dentro desta e para bem de todos. É por isso que pedimos:

A supressão do rendimento dos ociosos e dos que levam uma vida fácil, a supressão da escravidão do juro.

Pedimos uma luta sem tréguas contra todos os que, pelas suas atividades, prejudicam o interesse nacional. Criminosos de direito comum, traficantes, agiotas, etc., devem ser punidos com a pena de morte, sem consideração de credo religioso ou raça.

Pedimos que o Direito romano seja substituído por um direito público alemão, pois o primeiro é servidor de uma concepção materialista do mundo.

O Estado deve preocupar-se por melhorar a saúde pública mediante a proteção da mãe e dos filhos, a introdução de meios idôneos para desenvolver as aptidões físicas pela obrigação legal de praticar desporto e ginástica, e mediante um apoio poderoso a todas as associações que tenham por objetivo a educação física da juventude.
Pedimos a supressão do exército de mercenários e a criação de um exército nacional.

Kassab não é integralista. O Serra muito menos. Mas baladeiros não são inimigos do Estado. Nem a boemia, um câncer. Deveria haver um pacto.