aqui a neurose é profunda

aqui a neurose é profunda

Marcelo Rubens Paiva

05 Outubro 2012 | 13h15

Hoje estreia TODA NUDEZ SERÁ CASTIGADA.

Comemora os 30 anos do CPT, Centro de Pesquisa Teatral do SESC Consolação, mais do que uma escola de teatro, mas uma frigideira de ideias, talento, debate sobre o Brasil, filosofia, física e o homem do futuro.

Centro comandado pelo mestre, o veio ANTUNES FILHO, responsável pela renovação do teatro brasileiro.

E os 100 anos do nascimento de Nelson Rodrigues.

O reencontro é explosivo.

Foi ANTUNES que, nos anos 1980, recuperou NELSON do ostracismo ideológico a que foi submetido por suas opiniões desastrosas sobre o regime militar, em que dizia que não havia tortura, enquanto seu filho sofria nas masmorras de uma prisão política.

Ele ironizava a esquerda de batina que combatia a ditadura e, ao mesmo tempo, era visto cumprimentando Médici no Maracanã.

Jogado na fogueira com a ascensão dos movimentos feministas, NELSON passou a ser considerado um autor secundário, reacionário, antiquado e careta, diante da revolução dos costumes e dos direitos civis que avançava também pelo Brasil.

Suas mulheres histéricas, sexualmente conflituosas, numa sociedade que as dominava, o incesto reprimido, a pedofilia, os tabus da classe média ressaltam na obra de NELSON e incomodam.

Sua carreira internacional nunca decolou. Mas no Brasil entendemos bem e até nos identificamos com suas neuras.

São mais profundas do que os manuais do correto e errado. Fazem parte da antiga guerra entre edo e superego, instinto e cultura, desejo e consciência social, ser ou não ser.

Independentemente do que os outros iam pensar, ANTUNES passou a remontar NELSON durante a ruptura do regime militar brasileiro, a reconstrução dos movimentos sociais e a campanha das DIRETAS JÁ, para provar o quanto fomos estúpidos em boicotá-lo e o valor e a profundidade das suas obras- “Nelson Rodrigues, O Eterno Retorno” é de 1981, e “Nelson 2 Rodrigues” de 1984.

A partir de então que o PORNOGRÁFICO passou a, ironia, ser uma unanimidade: o maior autor de teatro brasileiro.

Sábato Magaldi enquadrou a peça sobre o rico que após a morte da esposa é levado a conhecer uma prostituta como uma tragédia carioca.

FICHA:

Adaptação e Direção: Antunes Filho

SESC Consolação

Rua Dr. Vila Nova, nº 245

Estreia Dia 05 de outubro, sexta-feira, às 21h.

Temporada de 05/10 a 16/12.

Sextas e sábados, às 21h. Domingos, às 18h. Exceto dias 07 e 28/10

Não recomendado para menores de 16 anos

Preços – R$ R$ 32,00 [inteira]; R$ R$ 16,00 [usuário inscrito no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante] e R$ R$ 8,00 [trabalhador no comércio de bens, serviços e turismo matriculado no SESC e dependentes]

Duração – 60 minutos

 

 

Escreveu Sebastião Milaré:

Vendo o ensaio na sala munida de escassos elementos cênicos e luz normal, nota-se o pensamento do diretor manifestado no gesto exato e na voz precisa dos atores, que vão desvelando aos olhos e à sensibilidade do espectador o delírio de Geni na situação limite, dentro da qual o Poeta organizou sua narrativa dramática.  Nada ali é excessivo. Sequer as referidas lembranças de incursões anteriores, somadas a outras mais, como as prostitutas seminuas em cortejo pagão no casamento de Geni, excedem os contornos dessa escritura cênica minimalista. Pelo contrário, as imagens se constituem e se movimentam no âmbito do pensamento. Mas não para ilustrá-lo, somente para torná-lo matéria visível. As citações abrem espaços, fendem as paredes da estrutura do drama pessoal fundindo-o ao drama coletivo. Brechas por onde passeiam arquétipos, tirando as situações do prosaico e redimensionando-as no plano das imanências, onde o efêmero digladia com o eterno, o profano copula com o divino, a aparência da coisa é apenas a indicação de infinitas possibilidades.

O que detona a ação é a palavra. Vislumbra-se aqui o principal cavalo-de-batalha de Antunes Filho em seus processos criativos com os atores do CPT. Como tornar a palavra funcional preservando-lhe os sentidos simbólicos e sem lhe castrar as contradições? Como emitir a palavra com decisão e precisão sem torna-la automática, mas plena de significados ocultos? Tudo começa na preparação do corpo, pois ele fala antes das cordas vocais serem acionadas, e culmina na ressonância, onde a palavra se libera sem constranger o corpo em seu contínuo discurso mudo. Entre uma coisa e outra está o profundo entendimento do universo poético em questão. Sem dúvida na longa pesquisa de modos expressivos e técnica vocal, desenvolvida no CPT, textos de Nelson Rodrigues apresentavam-se como exemplos e desafios. Frequentemente deparamos com encenações de obras de Nelson Rodrigues onde os criadores se deixam levar pelo pitoresco das expressões e situações, banalizando as palavras e ignorando os abismos que nelas se ocultam. Pode até ficar “engraçadinho”, mas nada tem a ver com a poética vulcânica de Nelson. Nela a palavra é arma de difícil manejo, mas letal, em todos os casos. E é para os abismos das palavras que Antunes conduz seus atores nesta versão de “Toda Nudez Será Castigada”.

Na verdade, a palavra do poeta sempre foi matéria-prima para suas criações cênicas. Todavia, ao se examinar as muitas montagens que realizou a partir de obras de Nelson Rodrigues, evidencia-se a sua “circum-ambulação” em torno do objeto, na busca impenitente de alcançar os significados mais profundos. Como meio de questionamento sobre a matéria, às vezes permite-se também a associação livre, mas sem abandonar os movimentos circulares. E da associação livre, surgem imagens referenciais, que desembocam em formas estéticas emblemáticas. Curioso observar, por exemplo, três abordagens à “A Falecida”, com resultados formais, estéticos, diversos, mas movidas pelo desejo de apreensão da essência poética. A primeira é de 1965, com alunos da EAD, e estava presa a conceitos do teatro psicológico, realista, embora com traços de ruptura. A segunda, no “Paraíso, Zona Norte”, resolvia-se em ambiente gótico agitado por arquétipos, com claras referências (associações livres) ao inconsciente coletivo. A terceira, cujo título completou-se por irônico “Vapt, Vupt”, resolvia-se na linguagem pop. Em todas elas, no entanto, a busca mais profunda do sentido expresso (ou oculto) nas palavras prevalecia sobre a forma, ou ia para além da forma. Agora, em “Toda Nudez Será Castigada”, as imagens referenciais surgem como licenças poéticas colocadas sobre o discurso cênico detonado pelas palavras do texto, e a “circum-ambulação” atinge o núcleo do objeto.

O espaço aparentemente vazio está pleno de pulsações. Não apenas o drama de Geni se manifesta no tablado, mas o drama humano. Anseios e frustrações criam o cenário de angústias e descaminhos, atmosfera densa, labirintos gerados pela fantasia e pelo medo de cada um. Não há salvação possível a esses seres que buscam a remissão por caminhos tortos ou por meios sórdidos. A essência de Nelson Rodrigues é assim revelada pelo artista que compreendeu como ninguém a sua natureza poética. Por isso, dentre tantos eventos e encenações em homenagem aos cem anos de Nelson Rodrigues, a montagem de “Toda Nudez” por Antunes Filho e atores do CPT ganha especial relevo. Dá-se ali o diálogo sobre a condição humana, estabelecido por poetas que se entendem e se complementam, pois um é da escrita e outro é da cena.

+++

Ela pode não concordar, mas acho FERNANDA YOUNG uma das muitas herdeiras de NELSON.

Abre seu arquivo de neuroses íntimas-femininas sem pudor.

Explora no romance, no teatro e na TV as doenças do isolamento afetivo, dos choques dos pensamentos, os humores numa vida que, nos perguntamos sempre, não faz sentido, o vazio da classe média urbana, que não tem relevância histórica e social nenhuma, mas apenas um dia a dia a preencher, suportar, não enlouquecer.

As pequenas bobagens do cotidiano viram grandes questões- segredo da boa literatura.

Sempre gostei de seus livros, amo as séries de TV que escreve com seu marido ALEXANDRE MACHADO [OS NORMAIS, OS ASPONES, MINHA NADA MOLE VIDA], e cá está lançando mais um, A LOUCA DEBAIXO DO BRANCO [pela Rocco].