American Vandal satiriza a América

American Vandal satiriza a América

Marcelo Rubens Paiva

16 Outubro 2017 | 10h49

 

Uma série que não deve ser ignorada: America Vandal.

É uma gozação sem dó da sociedade americana, ampliada através dos conflitos numa highschool da Califórnia. Como em Big Little Lies, da HBO, uma das séries mais premidas de 2016.

Criada por Dan Perrault e Tony Yacenda, e tocada por Dan Lagana, estreou há um mês no Netflix sem alarde. E já faz sucesso (96% é a avaliação dos usuários site Rotten Tomatoes).

Um aluno, Dylan, é acusado por um crime que talvez não tenha cometido: o de pichar pênis nos carros dos professores. O que ele nega.

A prova? O depoimento de outro aluno, Peter Maldonado, que descobrimos ser um provável mentiroso.

A mentira é um novo componente da sociedade americana. Todos agora mentem descaradamente. E na série são desmascarados por dois alunos que fazem um documentário sobre o caso. Que, lógico, são ameaçados e censurados.

 

 

Os oito episódios seguem uma narrativa documental.

Aliás, é difícil saber se são atores representando ou se, de fato, são os personagens reais da história. Pois nos créditos iniciais não aparecem os nomes de atores.

Uma dica está na abertura: a data da reunião do conselho da escola que expulsou Dylan é 1 de abril, dia da mentira.

Uma highscool é um espectro ampliado da sociedade americana.

Tudo na comunidade gira em torno dela.

Ensinamentos do individualismo, da sociedade competitiva, dividida entre bem-sucedidos e loosers, da filantropia, até da hierarquia militar (esportes), doutrinação que fazem o American Dream, florescem numa highscool, frequentada por todos os gêneros, religiões, etnias e, as públicas, classes sociais.

É um espaço aberto e não murado, como os daqui.

Tem teatros e quadras de esportes para os membros da comunidade.

E concentra as ações de militância e voluntariado.

Em American Vandal, revela-se o autoritarismo e as falhas da justiça, a manipulação da verdade, ampliada pela explosão as mídias sociais, e os complôs dentro e fora da escola.

Todo caso e detonado por quem? Pela professora de espanhol. Que provavelmente também mentiu.

Ironiza-se a paixão pelo junkfood, o ativismo exagerado de alguns, a vaidade de professores, a ignorância da turma do fundão, o racismo (um garoto nascido no Canadá é considerado de estranho e suspeito por ser “chinês”).

As piadas são sátiras.

A sutileza delas é sintoma de inteligência.

Os atores ou são espetaculares, com o dom do improviso e de timing, ou são atores selecionados por um casting perfeito.

Pois até o final não se sabe se são mesmo atores.

Só dando um Google.