América é isso!

América é isso!

Marcelo Rubens Paiva

09 Maio 2018 | 11h39

Por vezes, uma música é capaz de criar um debate que nos faz acreditar no potencial da arte.

Especialmente se ela vem com um clipe pontuado por referência bem escolhidas.

O ator-roteirista-músico-produtor Donald Glover, californiano criando na racista Geórgia, surpreendeu em 2017 por ganhar os principais prêmios (Globo de Ouro) de série cômica com a sua Atlanta (derrotando uma The Veep favorita), série de humor-negro que escreve e em que atua.

Ganhou também prêmio de melhor ator.

Dessa vez, lançou uma bomba como ChildDish Gambino: This is America.

Os americanos se preocupam demais com a imagem que representam no exterior.

Sabem que a ideia de ser o país que divulga ideias democráticas, de respeito a direitos civis e defesa do mundo livre é balela, para implementar o que realmente interessa: uma máquina de ganhar dinheiro.

No novo rap de Glover, em que canta com um sotaque africano, ele mostra ao mundo em desenvolvimento, que faz de tudo para cruzar as fronteiras e viver o sonho americano, o que de fato rola por lá: racismo, xenofobia, individualismo, demagogia e um vasto armamento pesado às mãos da população civil, direito constitucional.

Num clip filmado num estacionamento de carros (símbolo americano), sua dança esquisita lembra a de outro personagem, Jim Crow, personagem racista estereotipado negro criado no século passado.

Crow, o palhaço que divertia plateias brancas, inspirou a luta contra segregação racial.

 

O coro gospel de uma igreja é fuzilado por uma AK-47, diante de um carro de polícia que não faz nada.

Lembra massacres de Charleston e Sutherland Springs e a alienação que certos grupos religiosos impõem à comunidade negra.

Colegiais africanos dançam e inocentemente sonham com a América, que acham “cool”, mas desconhecem que no fundo as relações comerciais entre os dois continentes passam mesmo pelo tráfico, contrabando e dinheiro emprestado (lavado).

Sou legal, sou bonito? Não seja doido…

Canta, enquanto um cavalo com um cavaleiro do apocalipse passa.

Ao final, depois de dar uns passos ao estilo Michael Jackson, figura controversa (o grande ídolo negro que embranquecia), corre como que fugindo do linchamento.

 

 

We just wanna party

Party just for you

We just want the money

Money just for you

I don’t wanna party

Party, de festejar, lembra Apartheid.

Traduzindo:

Nós só queremos festejar

Festa só para você

Nós apenas queremos o dinheiro

Dinheiro só para você

Eu não quero festa

Festa só para mim

Esta é a América

Cuidado, não fique dando sopa

Cuidado, que eu estou te rapando