A mulher de

Marcelo Rubens Paiva

23 Agosto 2011 | 23h26

A mulher de 14 anos é garota, apaixonada pelos pais, tios e avós, pelo cachorro, pelos professores e amigas, pelo recreio e jardim, pelas abelhas que vivem nele, pelo travesseiro molinho de fronha de bolinhas, por sorvete de morango e esmalte rosa.

A garota de 16 anos é quase mulher, vive um momento novo, é olhada de outra maneira, maneira diferente da que está acostumada: provocada. E apaixonada pelo vizinho que joga vôlei na seleção sub-20 e tem uns cabelos desalinhados e uma namorada ciumenta, com quem sempre briga no pátio do prédio, e com quem sempre faz as pazes depois de ela chorar 45 minutos ininterruptos.

A garota-mulher de 17 anos conhece no cursinho um garoto de 17 anos, por quem se apaixona. Namoram. O primeiro grande namorado. Continua apaixonada pelos pais, amigas, tios, avós, cachorro, que sente que ela já não passeia com ele como antes, pela escola e jardim, onde se deita na grama para pensar, pelo travesseiro molinho, que dorme entre as pernas agora. E nem liga para o jogador de vôlei, que está noivo daquela mala. Usa esmalte vermelho agora.

A mulher de 18 anos não namora mais aquele carinha do cursinho, moleque demais. Descobre que gosta de beber e dançar, e está apaixonada por um guitarrista. Vai a todos os shows da banda dele, canta as músicas de cor. Mas o músico, sempre bêbado, deita-se com ela e dorme, deita-se com ela e com outras; ninguém é de ninguém. Ela se pergunta se com as outras ele é mais carinhoso. Usa esmalte roxo.


A mulher de 19 anos sente uma atração forte pelo sócio do pai, sensação que a deixa perplexa, pois conhece o cara desde pequena. Sente uma atração especial por muitos homens, como se quisesse provocá-los, seduzir sem culpa, mas não é paixão pelo outro, é atração pela vida, é prazer pela reação que sua presença causa nos homens. Ela está apaixonada pela paixão e poder.

A mulher de 20 anos está apaixonada por ela mesma. Dá um beijo no sócio do pai. Fica com ele numa festa. E fica também com uma amiga no banheiro, na mesma festa. Ela sabe agora como armar sua teia, como se apaixonar e deixar os outros apaixonados. Aproveita e fica com o jogador de vôlei, que largou o esporte e vende carros, não tem mais cabelos longos e se casou. E fica dias ouvindo Billie Holiday.

A mulher de 21 anos quer beijar todo mundo, seduzir todo mundo, viajar com todo mundo por todo o mundo, conhecer todas as tribos, dançar todas as músicas, comer todas as comidas, beber. Vai pro motel com o sócio do pai. Vira a sua amante. Ele é maduro, gostoso, tarado e divertido. Tem 30 anos a mais do que ela.

Aos 22, seu hobby é provocá-lo, quando ele e a mulher jantam na sua casa com seus pais. O que ela faz sentada na mesma mesa? Absolutamente nada. Nem olha. Nem fala. Como uma mocinha emburrada. Pára de sair com ele, depois que ele no motel a chamou de criança mimada.

A mulher de 23 anos descobre que sente mais por um arquiteto duro do que sentiu por todos os homens anteriores e fica absurdamente insegura, tonta. Namoram. Ela tem um ciúme injustificável. Sofre o tempo todo. Algo mudou. Descobre que não está apaixonada, que é muito mais. Descobre que está amando, mas tem dúvidas, é isso mesmo, amor?

Depois de um namoro intenso, com idas e vindas, a mulher de 26 anos larga o primeiro amor. Ninguém a avisou que amor traz dor. Fica um tempo sozinha, na balada, bebendo com as amigas, dançando. Está apaixonada pelo trabalho. É a sua prioridade agora.

Aos 27, volta pro arquiteto; ela estava carente. Mas não descarta os outros, especialmente o irmão gostoso do seu chefe, um cliente casado, o ex de uma amiga e o amigo de 18 anos da sua irmã caçula.

A mulher de 28 anos tem uma paixão absurda por um cara que faz cinema, com quem tem afinidades e química. Briga de novo com seu primeiro amor. É promovida, ganha mais. Namora o cara. Um namoro calmo, mas inseguro. Porque ela acha o cara demais. Ela e todas as vacas da cidade, que não param de ligar pra ele, mandar e-mails. O cara fez três curtas já e capta para um longa que ele mesmo roteirizou.

A mulher de 29 anos, pela primeira vez na vida, encontra um cara com quem pensa em se casar, o cineasta, e se sente muito insegura. Muito apaixonada. Muito mulher. Por isso, volta a sair com o ex, o arquiteto duro. Sai com os dois. Surpreendentemente, na véspera do Natal, briga com os dois. E vai sozinha pra Bahia, com uma pilha de livros de poesia (Sylvia Plath, T.S.Elliot e Leminski). Escreve no seu diário: “I don’t feel like a part of anything”.

A mulher de 30 anos não é apaixonada por ninguém, quer apenas concluir o mestrado e passar um tempo em Barcelona. Não quer se casar, nem pensa em engravidar. Amor é para profissionais. Fica com um cozinheiro catalão, perdão, um chefe de cozinha. E morre de saudades do Brasil. E do seu cachorro, que morreu. Pinta as unha de preto.

A mulher de 31 cansa de ser estrangeira, volta ao Brasil e quer se casar, mas não com o catalão, que não sai da Espanha. Ela volta pra sua cidade, seu País, aluga um apê nos Jardins. Ela sabe que o ideal é um carinha bonzinho, que lhe dá segurança, que pode ser um grande pai. Liga pro ex, o primeiro amor, que conheceu aos 23 anos, largou a arquitetura e trabalha com o pai, que fabrica esmaltes. Era o único com quem trocava e-mails de Barcelona.

Ela, pouco a pouco, seduz, e ele se deixa levar.

Namoram.

Todos os amigos recriminam:

“De novo?!”

Foda-se o mundo.

Casam-se.

Nada oficial; ele vai morar com ela.

 

[continua…]