A jararaca está viva: Lula encontra sua bandeira

A jararaca está viva: Lula encontra sua bandeira

Marcelo Rubens Paiva

16 Março 2017 | 11h26

18/03/2016- São Paulo- SP, Brasil- Ex-presidente Lula, durante ato em defesa da democracia, na avenida Paulista. Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

Foto: Ricardo Stuckert/ Instituto Lula

 

Lula encontrou aquilo que faltava para se manter no palanque do jogo político: combater a reforma da Previdência.

Ele sabe que, sem uma bandeira consistente no mastro, um político nem sobe no carro de som.

Entrou na política defendendo a liberdade sindical e o direito de greve. Era 1977, ditadura.

Era de quem a esquerda precisava para reorganizar a luta contra um regime que teimava em se manter e se encerrava lentamente.

Fundou um partido fora da esfera do tradicional PCB (que exercia influência no movimento sindical).

Encontrou outra bandeira anos depois, Diretas Já, movimento que lançou modestamente num comício na Praça Charles Miller, cresceu em proporção inédita, uniu o país e a oposição.

Teve atuação discreta na Constituinte. Seu partido, PT, então pequeno, erroneamente votou contra a nova Constituição de 1988.

“Votamos contra porque queríamos algo mais radical, que não foi possível”, declarou 25 anos depois.

Lutou contra a privatização e o Plano Real, bandeiras malsucedidas, já que o brasileiro estava apaixonado pela chance de ter um telefone e um celular barato e pela inédita estabilidade econômica.

A abertura econômica (o desemprego na Era FHC) e a falta de diálogo do governo tucano (“aselite”) apareceram como a chance de uma nova luta.

Com o ambiente economicamente favorável, lançou: Bolsa Família, redistribuição de renda, aumento do salário mínimo acima da inflação, desoneração de materiais de construção, produtos da linha branca, depois carro e gasolina, política de justiça social, de inclusão, cotas, FIES.

Não tocou nas reformas política, tributária e na impopular reforma da Previdência.

Foi eleito, reeleito e elegeu sua sucessora.

Atolado no Mensalão e depois na Lava Jato, a bandeira “sou vítima de perseguição” e “pelo estado de direito” agrega aliados, mas não convence a todos e mantém o país dividido.

O Governo Temer, a delação do fim do mundo, as trapalhadas de um presidente anacrônico e sexista, o envolvimento da cúpula do Poder no Caixa 2, o descrédito do Executivo (branco e masculino), Legislativo e até Judiciário, que solta o terceiro do PCC e o goleiro Bruno, deram a partida no carro de som.

A classe média, ameaçada, retirou a camisa vermelha do fundo da gaveta.

A impopular reforma das Previdência uniu centrais sindicais, que, antes de digladiavam pelo espaço político e cadeiras nos palácios de Brasília, movimentos sociais e parte da população.

Precisavam de um líder.

Lula apareceu, retornando à causa sindical.

O ciclo se fecha.

Encontrou sua nova bandeira.

Que, em oito anos de governo, evitou hastear.

Mesmo sabendo que o País quebraria, se não a desenrolasse.

“A jararaca está viva” (palavras dele).