a favor de que vida?

a favor de que vida?

Marcelo Rubens Paiva

09 Outubro 2010 | 12h46

O ABORTO virou a senha para se conquistar o voto do eleitor evangélico de MARINA, para o segundo turno.

Ambos os candidatos se declaram “a favor da vida” e negam que tenham, em algum momento de suas vidas, defendido a sua descriminalização.

Dilma “agradece a Deus” a chance de concorrer ao segundo turno.


Foi a sua primeira frase no primeiro programa eleitoral do segundo turno.

Mas a que vida eles se referem?

Por isso, resolvi resgatar uma coluna escrita em 2005 e publicada no CADERNO 2.

São histórias reais.

Sim, defendo que o aborto não deve ser crime.

Como não é na maioria dos países.

Talvez eu seja minoria do Brasil.

Mas posso enumerar os meu argumentos?

MENSALÃO DO ABORTO

Quarta-feira, 28 de setembro, São Vicente (SP). J.E., que pagou R$ 200 por um aborto, passa mal na clínica clandestina.

O resgate é chamado e a encontra com parada cardiorrespiratória e sangramento vaginal.

A polícia acha lençóis sujos de sangue, medicamentos de uso cirúrgico e instrumental ginecológico.

A menina morre horas depois no Centro de Referência em Emergência e Internação.

No dia seguinte, quinta-feira, morre de parada cardiorrespiratória na Unidade Básica de Saúde de Indaiatuba (SP) outra garota que, segundo a polícia, passou mal depois de tomar o chá “buchinha do norte” para abortar um feto de dois meses resultado de estupro.

Ambas tinham 14 anos.

Até quando o Brasil vai adiar o debate sobre a legalização do aborto? Está parado desde 1991 o Projeto de Lei nº. 1135 de Eduardo Jorge e Sandra Starling, que retira do Código Penal o artigo 124 que criminaliza o aborto. Segundo a relatora Jandira Feghali (PCdoB-RJ):

“O aborto é responsável por uma em cada oito mortes maternas, e o acesso a serviços de aborto seguro poderiam evitar entre 20 e 25% de mortes maternas que ocorrem anualmente nos países em desenvolvimento. A taxa de mortalidade materna teve uma redução significativa em alguns países das Américas quando o aborto começou a ser legalizado no inicio da década de 1970. Um ano após a sua legalização em Nova York (1971), a taxa de mortalidade materna havia diminuído 45%. No restante das Américas onde a legislação foi flexibilizada os dados se repetem. Em Cuba houve uma redução de 60%. Lá o Estado assumiu a responsabilidade pelos serviços. Em Porto Rico a prática do aborto é quatro vezes mais segura que a de um parto, e na Guiana, primeiro país da América do Sul a legalizar o aborto, ocorreu uma redução de 65% nas complicações decorrentes do aborto.”

E no Brasil?

Dados do Ministério da Saúde: em média 250 mil mulheres são internadas anualmente com complicações decorrentes de abortos clandestinos.

Em 1991, o número de curetagens pós-abortamento realizadas na rede pública de saúde ultrapassou 340 mil; 20% em meninas entre 10 e 19 anos.

Em 1997, foram 240 mil internações de adolescentes para realização de curetagem.

Pelo substitutivo de Feghali, parado na Comissão de Seguridade Social e Família, devem ser estipulados prazos para a interrupção voluntária da gravidez; 12 semanas para gestantes, 20 quando for fruto de violência sexual.

O procedimento deve estar disponível na rede pública e nos serviços prestados por planos de saúde.

Só deve haver uma punição para o aborto: quando cometido contra a vontade da gestante.

Enquanto não é votado, meninas de 14 anos morrem.

Foi publicada na revista da Associação Médica Americana uma pesquisa da Universidade da Califórnia que prova que o feto não sente dor até os três últimos meses de gestação; apesar de a estrutura cerebral se formar cedo, ela não funciona antes da 28ª. semana.

Em São Paulo, um aborto “cuidadoso” custa R$ 2 mil numa clínica conhecida de um bairro nobre. É o quanto adolescentes da elite pagam. J.E. pagou R$ 200. Faça as contas.

 Se as 340 mil que fizeram curetagem pós-abortamento na rede pública pagaram, digamos, R$ 200 o aborto, movimentou-se uma “indústria” de, por baixo, R$ 68 milhões.

Imagine quanto gera a empreendimento do aborto ilegal no Brasil, e quantos faturam com esse mensalão?

*

G.F., atriz brasileira, participava de um festival de teatro em Nova York.

Passou mal; vomitava sem parar. Mas não sabia falar inglês.

Chamou outra atriz, Rô, que ligou para 911.

Explicou a situação à atendente, que, treinada, sugeriu um teste de gravidez e deu o telefone do posto de saúde próximo. O teste deu positivo. Rô ligou para a clínica. Marcaram o aborto para o dia seguinte de manhã.

As duas foram atendidas por assistentes sociais, que não pediram vistos. G.F. assinou papéis se responsabilizando. O aborto foi feito gratuitamente. À tarde, Rô foi pegar G.F. na clínica.

Voltaram andando para o hotel.

M.S., casada com um estudante de doutorado em Berlim, engravidou.

Viviam de dinheiro de bolsa financiada pelo governo brasileiro; impossível montar uma família com aquela grana. Ela procurou uma clínica do Estado. Foi obrigada a assistir a alguns vídeos sobre reprodução. Fez o aborto gratuitamente.

Hoje, M.S. continua casada com o agora doutor, com quem tem três filhos.

M.P., universitário, morava em república e namorava uma ex-colega de escola que morava em outra cidade. Tinham 17 anos.

Paixão.

Ela engravidou. Bobearam.

Num fim de semana na praia, a lua estava demais, rolou, escapou. A família dela era muito conservadora.

Ele pesquisou, queria o melhor para a namorada, descobriu que havia tipos diferentes de aborto, queria o mais seguro, caríssimo, ele não teria dinheiro para pagar, mas tranqüilizava a namorada.

Corria contra o tempo.

Vendeu um violão, uma bicicleta velha. Não dava.

Finalmente, pediu para a sua mãe; explicou o propósito do empréstimo.

Ela deu o dinheiro. Avisaram a família dela que iriam viajar. Foram à clínica. O garoto ficou apavorado quando ela entrou com a enfermeira. Esperou seis horas num sofá.

Levou-a para casa da mãe dele. Ele não dormiu, preocupado, segurando na mãozinha dela. Isso foi há quase 30 anos. Ela está ótima, casou-se três vezes, teve quatro filhos.

Sim, M.P. sou eu.