A delação de Putin

A delação de Putin

Marcelo Rubens Paiva

19 Junho 2017 | 10h57

 

Putin vira minissérie.

Oliver Stone pensou em fazer um documentário de duas horas sobre o mais volúvel de todos os líderes mundiais, o ex-agente da KGB, Vladimir Putin.

Que não se sabe se é amigo ou inimigo dos americanos (dos europeus é inimigo com certeza).

Mas o cineasta, especialista em retratar líderes mundiais, como JFK, Nixon, Bush, Chaves, tinha material para quatro horas de documentário.

Não conseguiu editá-lo e ficou em quatro horas, exibido em capítulos pela Showtime, aos domingos.

Ontem, foi exibido um episódio que trouxe sem querer revelações bombásticas sobre a política americana.

Como numa delação, Stone o fez abrir o jogo sobre as eleições de 2016, se Putin gostava ou não do candidato de “esquerda” à presidência, o democrata Bernie Sanders.

Putin acabou dando uma aula de macropolítica americana.

Disse que Sanders poderia, se eleito, fazer algumas mudanças, mas não muitas, engessado pela burocracia que cerca a Casa Branca.

Explicou que a pessoa que encabeça o Estado manda menos que centenária força da burocracia que cerca a presidência.

Lembrou a incapacidade de Obama de se retirar dos conflitos do Oriente Médio e fechar a prisão em Guantanamo, promessas de campanha.

O que se deduz que, não, Putin não trabalhou pela vitória de Trump.

Será?

Stone é um tremendo cineasta e não toma partido. Não é um cientista político afiado.

Para o jornal russo Rossiyskaya, o cineasta disse que Putin tem comprometimento com a ordem mundial e com a soberania dos países.

“Ele é um advogado por treinamento. Sem sua interferência, os Estados Unidos continuarão a operar num mundo unilateral. Putin quer a volta de um equilíbrio. Ele não procura expandir a Rússia. Nunca o ouvi falar sobre isso. Ele redesenhou a nova fronteira russa, embora os 25 milhões de russos tenham ficado do outro lado”.

Stone fala da Criméia e do conflito na Ucrânia. Esqueceu-se da Chechênia, Geórgia e outros países que tiveram intervenção russa pesada.

Não é um especialista. O crítico da Vox, Todd VanDerWerff, até lamenta que Stone deixou de fazer as perguntas certas e não é um bom entrevistador.

Os americanos terão que ler nas entrelinhas para entender o que tem por trás da misteriosa mente do segundo homem mais poderoso do mundo.

No Show de Putin no Showtime.