A Copa de Todos os Brasis

A Copa de Todos os Brasis

Marcelo Rubens Paiva

03 Junho 2014 | 11h16

 

Se no Brasil tem muitos Brasis, a Copa de todos os Brasis é também a Copa de muitas Copas, e não a de todas elas.

1. A Copa Brasil-il-il – Dos comerciais ufanistas, euforia histérica e excessos, de lo(u)cutores que seguem uma lógica sem lógica movidos pelo fígado, não pelo cérebro. Parte da nação é atacada pela Síndrome Tino Marques: vê a seleção como uma constelação de semideuses amada em todos os países, por todas as gerações, capaz de parar uma guerra, de melhorar a economia, heróis que provocam alegria em aeroportos.

O amarelo das camisas cega a coerência, traz alucinações otimistas, com uma droga sem bad trip: a vida é boa, a vida é bela.

A Seleção é incrível, cura doenças, o mundo tem jeito.

O brilho dourado nos faz esquecer de problemas geopolíticos e injustiças sociais.

2. A Copa dos Milhões em Ação – Existe a Seleção e o nada. Repetimos a vinheta com o coração a mil, “somos todos um só”. Na TV, famílias pulam do sofá. Propaganda de cerveja tem gente eufórica, carteiros jogam bola, porteiros jogam bola, gente na praia e na montanha, ilustres e desconhecidos, brasileiros ou não, cachorros jogam bola.

Overdose de entrevistas com mães de jogadores: histórias de superação, realização de sonhos.

Tudo na tela passa a ser verde amarelo, os logos, as liquidações.

E se o Brasil ganhar, você ganha outro televisor de graça: “É hexa, é hexa!”

A Coca-Cola se torna humanista, leva a taça a rincões distantes, faz a alegria de crianças vítimas da guerra. A Coca-Cola é incrível! Beba Coca-Cola, patrocinadora oficial da Copa.

3. A Copa da Tia Dilma – Não rolou 100%. Seria incrível: trem-bala, mobilidade urbana, legado… Tadinha. Copa planejada na eufórica recuperação econômica; commodities em alta, pré-sal emergindo, emprego e crédito a dar com pau. País festejado pela The Economist como a bola da vez. O país do futuro não decolou.

Nove estádios, como na África do Sul? Façamos 12! Façamos um na Amazônia, outro no Pantanal e outro sobre dunas de areia! Sexta economia do mundo. Mostremos nossa exuberância, fauna e flora, nosso povo criativo e trabalhador. O brasileiro é antes de tudo um forte!

Será a Copa de Todas as Copas, bolou pessoal do marketing. Ano de eleição. O PCdoB organiza. Depois a gente dá um jeito. O Mantega diz que dá pra pagar. O Mantega sabe das coisas, é incrível. Pé no chão, bom em números.

A venda de ingressos da Copa da Coreia foi uma bagunça, a central sindical ameaçou com greves, deu trabalho ocupar os estádios vazios, diferentemente do Brasil, que já vendeu quase todos os ingressos.

O teto da Arena de Frankfurt quase desabou antes da Copa da Alemanha.

Na África do Sul, o Soccer City ficou pronto na véspera, manifestantes protestaram contra os gastos, teve greve de seguranças dos estádios, que reclamaram de salários atrasados, e a polícia caiu de pau.

E falta pouco para o País não ser mais governado pelo Jérôme Valcke!

4. Copa Poker Face – É a Copa do oportunista, que se preocupa mais com seus interesses do que com o evento. Se for boa para os negócios, elogia, se for ruim, critica. É a Copa do Ronaldo, que, conselheiro do Comitê Organizador, a defendeu nos piores momentos, até aos 44 minutos virar casaca, criticar o atraso, dizer que ela o envergonhará. O maior goleador de todas as Copas mudou de lado.

5. #naovaitercopa – Galera mobilizada em redes sociais, indignada com o custo do evento, dinheiro que deveria ter ido para saúde e educação. Crê que todo político é corrupto, todo partido é corrupto, todo empreiteiro é corruptor, todo dirigente é ladrão.

Os estádios brasileiros custaram R$ 8,5 bilhões, com uma média de R$ 12 mil por assento. Na Alemanha foi R$ 3.400, e na África do Sul R$ 5.300.

Vive um grande dilema, pois a Copa vai ter, é o movimento que, a partir de julho, não vai ter mais.

Torcerão para o Brasil?

Não vai ter Copa para o #naovaitercopa?

Ganha adesão de movimentos grevistas de motoristas e cobradores, professores, seguranças de banco, de rachas de sindicatos, que se juntam a índios, sem-teto e sem-terra.

Os movimentos sociais não dão trégua, já que os problemas sociais não deram. Organizou-se a Copa e não demarcaram terras indígenas, nada de salários dignos a professores, nem repararam perdas salariais.

Fica a dica: #quempagaconta?

6. A Copa de Murphy – Você conhece a lei: se uma coisa pode dar errado… Muita coisa dará errado.

O avião de uma delegação vai atrasar, o aeroporto vai fechar, torcedores ficarão presos em congestionamentos, uma turista argentina será assaltada, um repórter holandês se afogará, outro se perderá numa comunidade não pacificada, uma bala perdida rolará, uns black blocs vão depredar, a luz vai acabar, vai faltar água, um casal de japoneses vai pegar dengue, vai ter nego invadindo gramados pra protestar, no momento vergonha alheia vai ter piriguete rebolando na arquibancada, piquete na porta de estádios, balas de borracha, bombas de gás e vaia.

A Copa do Mundo não para o tempo.

Surpresa seria o Brasil deixar de ser Brasil por quatro semanas.

7. Imagine na Copa – Aqueles chatos que, qualquer problema, dos que sempre acontecem, reclamavam “imagine na Copa”, deixarão enfim de dizer “imagine na Copa”.

 

 

A minha Copa?

Vou com amigos assistir a todos os jogos. Nos bares e em casa.

Me divertir com holandeses bêbados pela cidade, provocar argentinos, recepcionar estrangeiros que já chegaram, indicar ruas e bares, praticar meu inglês, francês e italiano arranhado.

Já está rolando a minha Copa: assisti aos documentários de todas elas, debato a escalação, encontro torcedores estrangeiros me socializo.

Vou na abertura e na final, de metrô, com a camisa do Corinthians.

Já tenho os ingressos.

Minha Copa termina em outubro na cabine de votação da próxima eleição.

Será incrível.

 

 

 

 

Como dizem lá em casa: falou besteira, escuta o que não.