Violette, a bastarda
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Violette, a bastarda

Luiz Fernando Zanin Oricchio

09 Setembro 2014 | 18h54

 

A vida de Violette é tão incrivelmente triste que padece de um certo ar romanesco. No entanto, tudo aconteceu. Nascida filha bastarda (num tempo em que isso existia e era sério), Violette cresceu cheia de complexos e também da ambição de tornar-se alguém na vida. Em meio a tormentos variados, conheceu quem lhe deu a mão — uma mulher de gênio. No entanto, Violette apaixonou-se obsessivamente por ela, até se tornar uma presença incômoda. Isso não estragou a amizade entre as duas. Violette foi esbarrando na vida até encontrar aquilo que em literatura (arte, de maneira geral) chama-se “voz própria”. Uma assinatura, que distingue o artista de todos os demais. E, então, fez-se escritora e ganhou autonomia, o que, se não a fez mais feliz, pelo menos tornou-a livre. Isso também num tempo em que a palavra liberdade significava algo mais que liberdade de consumir e portanto tinha sentido mais pleno do que hoje.

A mulher de que se fala chamava-se Violette Leduc (sobrenome da mãe) e a escritora já famosa que a ampara é ninguém menos que Simone de Beauvoir. Violette (1907-1972) é interpretada por Emmanuelle Devos, e Simone, por Sandrine Kiberlain. As duas são os esteios do filme de Michel Provost. Mas, em nome da justiça, é preciso fazer uma diferença. Sandrine está ótima. Agora, Emmanuelle é qualquer coisa de indescritível. Seu trabalho de composição de uma personagem desesperada toca, às vezes, o sublime. O que isso quer dizer para que não soe como palavra oca? Que, ao vê-la e ouvi-la sentimo-nos arrastados pela subjetividade da personagem. Podemos pensar e sentir como ela, mesmo quando, racionalmente, seu comportamento nos pareça o mais estranho possível.


Com todas as suas limitações (a principal delas é que o desvario da personagem não entra no estilo do filme), Violette nos comove. Porque, sendo alguém que age de maneira tão errática, nos ilumina o caminho de construção da sua persona literária. Essa persona não existe para lhe dar prêmios, fama ou dinheiro. Embora isso tudo seja importante, torna-se secundário diante daquilo que busca por meio da literatura, ou seja, uma certa salvação de si mesma. Esse salvo-conduto, uma simbólica carta de cidadania, ela obtém nesse livro fortemente confessional, que não poderia ter outro título senão este: A Bastarda.

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