Victoria
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Victoria

Luiz Zanin Oricchio

04 Janeiro 2016 | 17h45

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Em Victoria, de Sebastian Schiper, há um dado técnico a destacar: o filme, com duas horas e catorze minutos de duração, foi feito num único plano, sem cortes. Quer dizer, a ação é contínua, ao contrário do que ocorre normalmente no cinema, com as cenas, muitas vezes filmadas fora de ordem, sendo montadas para a edição final. Aqui, tudo corre em ordem direta, sem cortes, em tempo real, numa prova de esforço da equipe e do elenco. Tal proeza valeu à produção um Urso de Prata no Festival de Berlim.

Mas, e daí? Vamos ao cinema para nos deslumbrar com esforços técnicos ou para fruir uma boa narrativa? A pergunta é retórica, claro. A maior parte dos espectadores  busca filmes que a envolvam, emocionem ou tragam alguma coisa a mais para sua vida. Pirotecnias técnicas, quando despidas de outros atrativos, tendem a cair no vazio, sendo apenas exibicionismo narcísico destinado a iniciados.

A boa notícia é que Victoria não se esgota em seu aparato técnico. Demora a engrenar, é verdade, mas, quando pega no breu, envolve o espectador numa trip alucinante pela noite de Berlim. A personagem que dá título à obra é uma jovem espanhola (interpretada pela catalã Laia Costa), que reside e trabalha em Berlim há três meses. A história começa com ela sozinha em uma balada num porão berlinense. Na saída, topa com um grupo de rapazes, mais ou menos embriagados, e deixa-se levar por eles, ou melhor, por um deles em especial. Nesse ponto, o filme navega por águas um tanto indefinidas, numa espécie de errância juvenil noite adentro, até que aponta a proa na direção a uma aventura cujas consequências ninguém pode prever. E então a coisa começa a ferver.

Num comentário a posteriori, pode-se dizer que temos diante de nós o retrato bastante forte de uma juventude europeia meio sem rumo. Vivem na abastança de países nos quais o óbvio (saúde, educação, seguridade social) já foi há muito resolvido. Mesmo assim, faltam perspectivas. Talvez o desemprego os assole, mas é mais um certo niilismo, uma ausência de valores, de utopias, de projetos para o futuro que saltam à vista. Como numa eterna balada, vive-se o momento. A vida é um eterno presente, mesmo porque não existe amanhã. Para que o presente renda o seu máximo, precisa ser turbinado por aditivos como álcool, drogas e aventuras malucas.

Nesse ponto, se nos distanciarmos um pouco, notaremos o quanto o recurso do plano único serve à narrativa. O fato de a câmera acompanhar de perto os personagens, de forma contínua e nunca dispersiva, ajuda a nos aprofundarmos em seu universo. Esse é um mundo da ação contínua, do imediato, em que poucas pausas para reflexão são oferecidas. Em entrevistas, o diretor Sebastian Schiper tem dito que, durante os ensaios, aprofundou-se no passado dos personagens, o que explicaria seu comportamento no presente (isto é, na história narrada pelo filme). Mas tudo isso foi limado na hora da filmagem. Nada, ou pouco, ficamos sabendo da história pregressa dos personagens, a não ser que um deles andou preso e, na cadeia, foi protegido por uma associação criminosa, uma espécie de PCC germânico.

Em outro momento, talvez o mais bonito e lírico deste filme pauleira, Victoria evoca (musicalmente) seu passado e, de certa forma, explica porque trabalha como garçonete num país que não é o seu e cujo idioma não domina. A ideia da Europa como único e mesmo país, sem fronteiras, desvela-se assim como utopia, mais que realidade.

São considerações que passam, por assim dizer, à contraluz desse filme compacto, apesar de longo. É possível argumentar que talvez um processo de montagem o fizesse melhor. Mas daí a sustentar que a adoção do dispositivo de plano único o estraga vai uma grande distância. Ele passa adrenalina e empatia por personagens que, afinal, vamos descobrindo quase exclusivamente por suas ações, no momento em que elas se tornam ato.

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