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Vale gol de mão? *

Luiz Zanin Oricchio

30 Outubro 2012 | 15h19

À primeira vista parece meio bizantina essa discussão em torno do gol anulado de Barcos no jogo entre Palmeiras e Internacional. Repetido à exaustão, o lance mostra com toda a clareza a mãozona do argentino empurrando a bola para as redes. Para que discutir, então?

Por uma dessas particularidades do ser humano: remoer questões de princípio. Nesse sentido, mesmo que o Palmeiras entre com recurso pedindo anulação da partida (o que não deveria fazer), e perca, algumas coisas ficam pendentes desse caso todo. E não dizem respeito aos três preciosos pontos perdidos pelo Palmeiras, pois estes já foram para a cucuia ao que tudo indica.

São questões de base, mesmo. E põem em xeque as regras do jogo. Primeiro, o princípio, será que Barcos deve ser execrado por tentar fazer o gol a todo custo, procurando iludir a arbitragem? Em outras palavras, a malandragem cabe no futebol ou deveria ser severamente castigada para que a lei fosse cumprida à risca, sem exceções?

Barcos tentou burlar a mais elementar regra do jogo da bola. Foi pego. Em 1986, Maradona marcou um gol de mão contra a Inglaterra. Foi validado. Ele depois comentou que havia sido “la mano de Diós”. Ironia não lhe falta. Em nenhum momento sentiu-se diminuído ou envergonhado. Pelo contrário. Sobra-lhe orgulho por ter feito o gol ilício contra a mesma Inglaterra que invadira as Malvinas e matara seus compatriotas. Pequena, mas terrível vingança.

Só Maradona? Que nada. De uma maneira ou de outra, com maior ou menor habilidade, os boleiros põem a mão na bola, inventam faltas, desabam dentro da área para obter um pênalti. Os grandes simulam, do mesmo jeito que os pés de chinelo. Pelé enroscava-se com seu marcador para simular pênaltis inexistentes. Neymar foi vaiado na Inglaterra por supostamente ser cai-cai. Outro dia, Michael Owen, o grande ídolo inglês, clareou a situação: “Todos simulam; todos, sem exceção”, ele disse. Aliás, se não simulassem, se todos fizessem como Klose, que confessou haver colocado a mão na bola, os juízes, no limite, seriam dispensáveis. Seria o mundo perfeito. Na vida, como na bola, é preciso haver a regra e quem a faça cumprir. E quem comete o delito, e escapa à punição, bem pode terminar como herói ou ídolo. Feio é deixar-se apanhar.

No caso do Palmeiras, a questão de fundo é outra. Ao que tudo indica, houve interferência exterior para assinalar a falta de Barcos. O juiz e seus auxiliares não haviam percebido. Mas a câmera da TV registrou. E essa informação chegou ao árbitro, que então anulou o gol. A informação exterior ao campo não está prevista pela Fifa. Criou-se, então, essa situação paradoxal: para cumprir a lei foi preciso descumpri-la. É sobre esse ponto que se apega o Palmeiras, tentando a improvável reversão do jogo. Pode criar um precedente jurídico interessante, que abra caminho para a utilização legal dos meios eletrônicos em lances controversos.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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