As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Um thriller político da era Fujimori

Luiz Zanin Oricchio

06 Junho 2007 | 13h24

FORTALEZA – Francisco Lombardi chegou a ser um dos mais extraordinários cineastas da América Latina. Quem conhece seu buñuelesco Caídos del Cielo sabe que não há exagero na afirmação. Boca de Lobo é um ensaio eficaz sobre a guerrilha do Sendero Luminoso e Bajo la Piel (que concorreu no Festival de Gramado), um thriller mais do que bem construído. Da mesma forma, Pantaleão e as Visitadoras é uma boa comédia crítica, adaptada da obra do seu conterrâneo Vargas Llosa. Para a competição do Cine Ceará, Lombardi enviou (não pôde vir em pessoa) seu trabalho mais recente – Mariposa Negra, segundo filme do tríptico planejado para os infaustos anos do governo Fujimori no Peru.

Vale a intenção, mas, como se diz, o inferno está cheio delas. O fato é que, do ponto de vista cinematográfico (que é o que interessa), Mariposa Negra parece uma involução na trajetória do seu autor. Não que seja mau filme e até que funcionou em termos de comunicação com o público, que lotou mais uma vez o Cine São Luís e lá permaneceu até o final da sessão. Aplaudiu moderadamente.

Baseado no romance Grandes Miradas, de Alfonso Cueto, o filme conta uma história da época de Fujimori e seu assecla Vladimiro Montesinos. Uma professora está noiva de um juiz, mas este aparece assassinado, com sinais de tortura. Uma jornalista, empregada em um jornal sensacionalista, publica uma reportagem na qual se diz que o juiz morreu em meio à orgia de uma festa gay. Gabriela, a noiva, decide investigar a morte do noivo, na estranha companhia da jornalista que escreveu a reportagem difamatória. A história pretende ser uma descida aos infernos da corrupção e dos meios que ela se encontra para se infiltrar nos meios político, policial e judicial. Algo familiar a toda a América Latina e, por que não?, a outras partes do mundo também.

Estamos aqui no terreno preferido de alguns dos filmes de Lombardi – a trama policial, a investigação, que leva em tese ao culpado. Desta feita, no entanto, falta o clima, essa entidade de difícil definição, mas sem a qual o cinema não funciona. Fica difícil entender os movimentos da noiva em busca de vingança. Mais ainda os motivos da jornalista, que a acompanha e assessora. Tudo parece muito artificial. Mais do que isso, bastante convencional, do ponto de vista cinematográfico.

Compreendem-se as razões de Lombardi, que havia feito anteriormente filmes de grande sucesso em seu país, mas depois conheceu o gosto do fracasso. Quis agora voltar aos êxitos de bilheteria e entendeu que o público do nosso tempo não é lá muito chegado a experimentalismos ou mesmo a ousadias já consagradas. O público, o grande público pelo menos, tornou-se muito conservador em matéria de estética (e, para falar a verdade, não apenas em matéria de estética). Lombardi deve ter entendido que a “mensagem” que tinha para passar era mais importante que qualquer exercício de estilo e assim anulou-se, como “autor”, diante do seu tema. Não precisamos nem nos socorrer de Maiakovski para saber que, quando isso acontece, é o cinema que sofre e o resultado se torna anêmico e problemático. Sente-se falta do Lombardi mais ousado, mais inventivo. Aquele que sabia fazer do empenho na linguagem o fundamento de um filme bem-sucedido.

Neste Mariposa Negra, percebe-se a mão de um narrador seguro e experimentado, mas pouco mais do que isso. Esperava-se mais, sobretudo em um festival de cinema onde, em tese, a linguagem dessa arte é convidada a explorar com mais liberdade as suas possibilidades.