Um Oscar de tempero latino
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Um Oscar de tempero latino

A cerimônia, que acolheu protestos e reivindicações identitárias, consagrou o diretor mexicano Guillermo Del Toro e a produção chilena Uma Mulher Fantástica, protagonizado por uma atriz transgênero

Luiz Zanin Oricchio

05 Março 2018 | 13h38

 

Com os discursos das atrizes contra o assédio mais controlados pela organização, a cerimônia do Oscar voltou-se para a diversidade e uma certa afirmação latina. Das minorias, como convém ao momento. O México deve estar em festa – além do triunfo de Guillermo Del Toro (melhor filme e direção), viu a animação Viva – a Vida é uma Festa, baseada na cultura mexicana, ser eleita em sua categoria.

No todo, a cerimônia foi morna e chata, mas não mais do que a média. A premiação, no geral, me pareceu justa, com alguns reparos pontuais. O maior deles: a injustiça cometida com Agnès Varda, cujo extraordinário Visages Villages perdeu para documentário muito inferior, o norte-americano Ícaro. Varda, que receberia um Oscar pela carreira, nem apareceu na transmissão pela TV.

Abaixo, as notas que fui enviando ao jornal ao longo da premiação. Levemente editadas, marcam a marcha da distribuição dos prêmios, na ordem em que se deu.  

Melhor filme

A Forma da Água. Não houve zebra e o mais indicado e apostado acabou mesmo ganhando o prêmio principal. É um prêmio original, pelo gênero do filme, em tese “não premiável”, e pela nacionalidade do diretor. A sacada de Del Toro foi colocar o gênero fantástico num clima de romantismo desbragado, de um lado, e de paranóia da Guerra Fria, de outro. O fato de ser um diretor mexicano, adiciona um tom crítico adicional a esta cerimônia que, no todo, teve um perfil baixo e discreto. As mensagens foram passadas, mas sem o brilho e a marca da surpresa que tiveram no Globo de Ouro. O México deve estar em festa e a mensagem final é a seguinte: abaixo os muros e Viva a Vida!

 

Atriz

Outra bola cantadíssima da noite: melhor atriz, Frances McDormand por seu papel em Três Anúncios para um Crime. Acho mesmo que tinha de ser ela, que já tinha um prêmio por Fargo, quando interpretava uma policial grávida. Agora está inesquecível como a mãe que exige a punição do criminoso que matou sua filha. E ela faz discursos muito engraçados. Emocionou a todos pedindo que as mulheres presentes se levantassem para ser aplaudidas. A questão é “inclusão”, ela disse. Além de ótima atriz, é também muito consciente. E bem-humorada, o que hoje são qualidades difíceis de encontrar juntas.

Ator

A bola mais cantada da noite – Gary Oldman melhor ator por sua caracterização de Winston Churchill numa fase crucial da História do século 20. A decisão de enfrentar Hitler custasse o que custasse foi um grande momento na biografia do homem. Com Oldman, há um ator à altura do personagem, o que não é dizer pouco. Justíssimo.

 

Diretor

Guillermo del Toro leva o Oscar de direção. Bem, muita gente apostava que o prêmio poderia ir para Jordan Peele, ou Greta Gerwig, pela prevalência de questões raciais e de gênero na edição deste ano. Mas um prêmio para um mexicano também não deixa de ser politicamente explosivo no país de Donald Trump. E, no discurso de agradecimento, Del Toro não deixa por menos e fala num mundo que iria muito melhor sem muros. É isso mesmo: precisamos de mais pontes e menos muros. Bom prêmio.  

 

Fotografia

Melhor fotografia para Roger Deakins, de Blade Runner. Ok, é boa. Preferência pessoal todo mundo tem e a minha iria para Dunkirk. Ou mesmo Mudbound, um filme surpreendente sob muitos aspectos. Mas é claro que as preferências baseiam-se em sutilezas porque os finalistas são todos muito bons do ponto de vista técnico. Não se pode falar em injustiça, portanto.

Trilha original

Alexandre Desplat faz uma trilha original muito bonita para A Forma da Água. Muitas vezes a música de cinema só funciona na tela. A dele se aguenta muito bem apenas ouvida. Tentem no Spotfy. É muito bonita. Achei justíssimo o Oscar para o francês.

Melhor canção

Remember Me fica meio na cabeça de quem assiste a animação Viva, a Vida é uma Festa. Acho que também foi a premiação mais lógica.

 

Roteiro original

Roteiro original foi para Corra!, o que é um prêmio ousado e, me parece, bastante merecido . Há invenção, força e coragem para debater a questão racial num gênero não muito aceito até aqui pela Academia, o terror. Legal essa premiação, e o autor do roteiro, e também diretor do filme, Jordan Peele, agradeceu de forma emocionada. O filme pode ainda ambicionar mais prêmios. É da hora. Obra boa, com pegada jovem, diretor e elenco predominantemente negros. Não é cota. É justiça.

 

Roteiro adaptado

James Ivory pela adaptação de Me Chame por Seu Nome. Um filme bastante badalado por aí, mas que também tem seus detratores. Um crítico o chamou de “Pasolini” de butique. E, de fato, não aguenta uma releitura; é meio raso. Parece que o livro de André Acimam terá uma continuação. O que é um perigo.

Montagem

Lee Smith leva o prêmio de melhor montagem por Dunkirk. Bom, bem montado o filme é. E nesse tipo de história, feita de alternância entre espera e ação, o ritmo é fundamental. Foi merecido.

 

Efeitos visuais

Foi o que sobrou para Blade Runner, que tem qualidades, mas não é mesmo filme que emplaque grande coisa no Oscar. A não ser em categorias técnicas, como esta de efeitos visuais. A meu ver não houve grande destaque nesse quesito entre os concorrentes. Poderia dar um como outro. Ficou com o filme mais consistente. De bom tamanho.

Longa de animação

E venceu o favorito na categoria, Viva, a Vida é uma Festa, inspirado desenho baseado no dia dos mortos, uma tradição mexicana. Era uma bola cantada, não apenas pela qualidade, mas como uma espécie de desagravo aos estrangeiros e imigrantes face a política xenófoba de Donald Trump. Tudo isso à parte, o desenho é mesmo encantador.

Atriz coadjuvante

Allison Janney faz a excelente mãe meio psicótica da patinadora em Eu, Tonya. Categoria forte, tinha várias alternativas possíveis de prêmio, mas fica bem com Allisson. Aliás, esse é um filme dos mais interessantes, sobre a classe baixa branca dos Estados Unidos, num retrato cruel e sem muitos retoques, baseada num caso real. E, no quadro montado, Allisson é fundamental para se compreender a personagem. Pensando bem, o Oscar caiu muito bem para Allisson.

Filme estrangeiro

Muito adequado para a pauta atual de questões identitárias e de gênero, o Oscar foi para Uma Mulher Fantástica, do chileno Sebastián Lelio. Tem por protagonista a atriz transgênero Daniela Vegas. Derrota pesos pesados como The Square, Sem Amor e O Insulto. Não se trata apenas de política de momento. Uma Mulher Fantástica é muito bom filme, mesmo. E a América Latina belisca mais um Oscar. O Brasil segue na fila.

Design de produção

Primeiro prêmio para o mais indicado, A Forma da Água. O que se pode dizer é que a ambientação criada para o filme de Guillermo del Toro é primorosa.

 

Mixagem de som

Mesmo comentário em relação a mixagem. Tecnicamente Dunkirk é muito bom. Além de ser outras coisas mais. O som, de modo geral, é um dos pontos altos, responsável por jogar o espectador na tensa experiência da retirada dos soldados cercados por tropas nazistas na Normandia.

Edição de som

Richard King e Alex Gibson levaram o Oscar de edição de som por Dunkirk. Justíssimo. O filme de Christopher Nolan, sobre um dos episódios cruciais da Segunda Guerra, é acima de tudo um grande espetáculo. E esse espetáculo não depende apenas de imagens mas também da edição de som.

Documentário

Icaro é um filme interessante sobre o doping no esporte. É muito bom filme, na verdade, uma poderosa denúncia sobre o doping como política de Estado montada pela Rússia. Mas haveria alternativa melhor, Visage, Village, da incrível Agnès Varda. Sutil demais para a Academia, talvez. Icaro pode ser visto na Netflix.

Figurino

Trama Fantasma, um filme sobre figurinista, ganha melhor figurino. Numa categoria disputada, pôde-se dizer que o prêmio cai como uma luva para um filme caracterizado, acima de tudo, pelo rigor de sua feitura.

Maquiagem

O Destino de uma Nação leva maquiagem pelo belo trabalho de caracterização de Gary Oldman como Winston Churchill. Muita gente andou botando defeito, mas o trabalho de maquiagem dá credibilidade ao filme, que também tem muitas outras qualidades. Merecido.

Ator coadjuvante

A primeira barbada da noite. Sam Rockwell por Três Anúncios para um Crime. Todo mundo apostava nele e acabou dando o óbvio. Tinha pesos pesados como alternativa, a começar pelo grande Christopher Plummer e o sempre muito bom Woody Harrelson. Mas o prêmio fica bem com Rockwell.