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Um filme que faz bem

Luiz Zanin Oricchio

12 Junho 2007 | 19h03

O título do post parece um pouco lacônico? Bem, é isso mesmo: Um Lugar na Platéia (Fauteuil d’Orchestre) é apenas um bom filme francês, nada excepcional, mas do qual se sai de bem com a vida.

Filme de diretora, Danièle Thompson, conta a história de uma jovem provinciana que chega a Paris e vai trabalhar numa lanchonete próxima de um teatro. Entra assim em contato com “o mundo das artes”. Basicamente, são três histórias que se desenvolvem em torno da garota Jessica (Cécile de France): uma atriz de comédias ligeiras (Valérie Lemercier) em busca de um papel sério, um colecionador de arte (Claude Brasseur) que decide colocar à venda as obras reunidas ao longo de uma vida, e um pianista famoso(Albert Dupontel), que ama a música, mas não se sente mais atraído pelos concertos de gala, esse ritual burguês com todo mundo vestido a rigor.

Quando você conta a história de um filme, ou pelo menos dá indícios sobre ela, tudo pode parecer bem bobinho. O que se pode dizer é que a maneira como são construídas e entrelaçadas essas linhas de narrativa, a presença em cena dos atores e atrizes que vivem os persoangens, e um sentido geral de calor humano e humor, salvam esse filme de bons princípios de qualquer pieguice. É um trabalho feminino, na maneira mesmo como se trabalham esses temas, que na verdade confluem para um único ponto – seres humanos buscando alguma coisa na vida de mais sólido que a fama ou o sucesso financeiro. Bonita e tocante, por exemplo, a cena do concertista tocando para uma platéia de doentes na capela do hospital La Salpêtrière.

Se nesse ponto vocês me permitem uma rememoração, eu costumava ir aos domingos a esses concertos na capela do complexo Salpêtrière-Pitiè. Morei uns tempos próximo de lá, no Bd. de l’Hôpital, e sempre me comoveram esses concertos para os internos, gratuitos e também abertos ao público em geral. Para ouvir música clássica, descia dos quartos gente ainda instalada em suas camas hospitalares, muitas vezes com tubos ligados nas veias. Não sei se isso ainda acontece, mas era uma tradição daquele velho hospital, onde, no fim do século 19,um jovem médico, vindo de Viena, chegou para estudar com Charcot, o maior psiquiatra da época. Sigmund Freud era o nome do rapaz, e ninguém o conhecia em sua terra e muito menos em Paris. Bem, fechar parênteses e voltemos ao filme.

Um Lugar na Platéia é pensado com sensibilidade e com o coração. Sem inventar nada, Danièle consegue dispor suas histórias em narrativa fluida, escorreita e leve, como um texto bem escrito. Meio sem perceber, você vai assistindo, entrando na história, e, quando se dá conta, já está fisgado pelos personagens, com seus dramas, alegrias e desejos. E sempre é bom ver em cena atores como Claude Brasseur, no papel de Jacques, o colecionador de obras, ou Valérie Lemercier, como a atriz Catherine. Paris está linda, não como cartão postal ou roteiro turístico, mas como a cidade luminosa que pode ser quando vista de um certo ângulo. Pode não ser obra-prima. Mas quem precisa (ou agüenta) obra-prima todo dia?