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Luiz Fernando Zanin Oricchio

17 Março 2016 | 22h17

Um dia…

Um dia, quando tudo isso passar (tudo passa), será preciso perguntar, a sério: como chegamos a essa situação?

Há uma certa desolação em relação ao momento atual, em especial, acredito, para os de minha geração. Tivemos a vida cortada ao meio por uma longa ditadura militar. Não se passa impune por isto.

Ainda temos na memória a efervescência que antecedeu o golpe de 1964. Embora ainda muito garoto, podia sentir o frisson no ar. Lembro que, na madrugada de 31 de março para 1º de abril, meu pai acompanhava pelo rádio os acontecimentos. Trocava informações, pela janela, com o vizinho, um gaúcho que então alugava a casinha geminada à nossa, na Aclimação. Quando veio uma notícia favorável qualquer (vamos imaginar que o deslocamento de tropas do general Mourão), o vizinho não se conteve. Pegou o revólver e deu vários tiros para o ar, comemorando.

Depois tivemos aquele intervalo de 1964 até 13 de dezembro de 1968, quando a ditadura escancarou e editou o AI-5. Esse intervalo foi uma fase de criativa contestação. Música, teatro, cinema, movimentos de estudantes, tudo levava a crer numa sociedade que não se rendia à ditadura. Depois do AI-5 tudo mudou. Veio a longa noite, de pelo menos dez anos, até que chegasse a Anistia e começássemos a ver a abertura no horizonte.

Houve depois a campanha das Diretas, Tancredo, que morreu antes de assumir, o desastroso governo Sarney, até chegarmos à eleição direta para presidente, em 1989. Collor x Lula. Collor ganhou e deu no que deu. Itamar, com seu governo de transição, depois FHC e seu plano Real. Em seguida, os governos Lula, e, depois o primeiro de Dilma.

Parecia uma nação serenizada, com suas feridas fechadas, cicatrizadas. Mas não era bem assim. Algo espreitava no horizonte e, com o mensalão, as portas do inferno começaram a se abrir de novo. Aos poucos, porque o Cujo não as escancara de vez. Isso começou há dez anos e agora chegamos a essa situação que parece não ter fim, e nem remédio.

Vi hoje uma foto em que dois manifestantes, um pró outro contra o governo, se encaravam. Um deles era um rapaz sarado, cheio de músculos. Estava de dedo em riste contra um moço de óculos, bem franzino. Não quero tirar conclusões maniqueístas de uma imagem, mas era bem significativa. Cadê a cordialidade brasileira, embora esta sempre tenha sido um mito, leitura cândida de uma obra clássica, como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda? Onde o nosso “jeitinho”, embora este fosse um misto de jogo de cintura com tolerância com infrações? Onde a nossa sociabilidade, embora esta escondesse a nossa atávica vocação para a violência? Enfim, nada restou do verniz que nos tornava admirados por estrangeiros. Vivi na França e pude testemunhar a admiração que os franceses tinham por nós. Como se, apesar de nossos óbvios problemas, fôssemos emissários de alguma boa nova, de uma possibilidade de alegria incomum num mundo europeu triste, eficiente mas sério demais. Afinal,um dos nossos mais brilhantes escritores não dizia que “a alegria é a prova dos noves”?

Éramos, como diz um personagem de Quarup, o grande romance de Antonio Callado, “uma droga de país, porém feliz”.

Claro, queríamos mais do que essa promessa um tanto ilusória de felicidade. Mais do que samba, carnaval, futebol e mulher, como os gringos nos viam. Queríamos ser uma potência. Sexta ou sétima economia do mundo. Não mais o utópico “País do Futuro”, livro que nos legou um exilado ilustre, Stefan Sweig, fugido do nazismo e que se suicidou, com a mulher, em Petrópolis. Queríamos ser o país do agora.

E parecia que seria assim mesmo. Milhões de patrícios tirados da miséria, o Brasil fora do mapa da fome, que nos humilhava e nos afrontava. Para completar, o bilhete premiado do pré-sal, que nos levaria ao paraíso do Primeiro Mundo. Havia o sonho: aplicar essa fortuna que jazia sob as águas para desenvolver a infra-estrutura e desatar nós ancestrais do desenvolvimento. E, outra parte, na educação, sem a qual nenhum povo pode ser considerado livre de verdade.

No entanto, havia um mal-estar instalado de forma latente no País, que foi crescendo, tomando corpo e explodindo agora, nessa curiosa mistura de euforia e ódio que se assiste nas ruas. Há uma pulsão das ruas, isto é inegável. Uma adrenalina, que turbina os que se perdem na multidão. Uma endorfina, mais poderosa que qualquer droga, e que aparece quando o indivíduo se dilui no coletivo e passa a fazer parte da massa. É o que acontece num campo de futebol, naquela situação artificial e limitada de um jogo de 90 minutos. É o que acontecia nas cenas ainda hoje impressionantes das manifestações nazistas na Alemanha de Hitler. Há uma força e uma irracionalidade na multidão. Ela convida a esse gozo coletivo, simula o orgasmo e sempre está a um fio da violência. Eros e Tânatos, desejo e morte, convivem na multidão. E o ódio é elemento agregador muito forte. Por isso, talvez, as manifestações contra alguém ou alguma coisa são, de forma geral, muito mais intensas que as manifestações a favor. O ódio é um aditivo poderoso.

E a ele chegamos – o ódio. Instaurou-se de forma soberana. Já não há mais espaço para troca de ideias. Trocam-se insultos, não teses conflitantes. O diálogo esgotou-se. Daí a sensação de cansaço ao vermos o noticiário repetitivo. Ele é um empilhamento de fatos, reais ou não, que não comportam análise, já que esta supõe alguma serenidade e distanciamento. A nação paralisou-se numa abulia invertebrada, um espasmo sem consciência de si. Como consequência, instaurou-se o clima do vale-tudo. Inútil juristas perorarem sobre a legalidade disto ou daquilo quando todos sabem que agora é guerra e, na guerra, os fins justificam os meios, sejam estes quais forem. Os meios escusos, como se sabe, corrompem os fins.

Gostaria de ser mais otimista, como os que garantem que as instituições estão mais fortes do que nunca. Sinto-as, ao contrário, muito frágeis, capazes de soçobrar com facilidade ao clima de ódio e ressentimento vigentes.

Com os demônios à solta, todo o legado de luta contra a ditadura está sob risco.

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