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Tropa de Elite: triunfo do espetáculo, mas não da reflexão

Luiz Zanin Oricchio

05 Outubro 2007 | 20h19

É possível que as eventuais virtudes cinematográficas de Tropa de Elite acabem ficando em segundo plano, pelo menos num primeiro momento. O que se tem discutido é se o filme seria “fascista” ou não. Se incita ou não à violência e se é mesmo a favor do “olho por olho dente por dente”. Essa preocupação tem aparecido menos pela análise do filme em si do que pelas reações despertadas onde foi exibido, no Rio de Janeiro em particular. Parte do público aplaude quando os policiais do Bope torturam ou matam de maneira sumária. Ora, a reação não é nova e se repete em situações de insegurança pública como a que vivemos hoje. É semelhante ao apoio ao Esquadrão da Morte ou à palavra de ordem “Rota na rua”, que já ouvimos em São Paulo. Há pouco, o apresentador Luciano Hulk, que havia sido assaltado, escreveu um artigo na Folha de S. Paulo clamando pelo capitão Nascimento, o “herói” de Tropa de Elite. A raiz dessas reações se encontra no filme, em uma população assustada ou em ambos?

Difícil decidir. O protagonista, o capitão Nascimento vivido por Wagner Moura, não é um Rambo monolítico, mas um homem em conflito. Leva aquilo que considera sua missão a ferro e a fogo, mas sofre de Síndrome de Pânico, está louco para se livrar do comando e transformar-se em instrutor da tropa. Quer sair da linha de fogo, dedicar-se à família, e para isso terá de fazer um sucessor. Essa divisão interna do protagonista bastará para fazer de Tropa de Elite um filme “aberto” a conclusões? Esse é um ponto a ser discutido.

Outro aspecto: não há dúvida que Tropa de Elite põe em pauta uma espécie de pragmatismo bem contemporâneo. O Bope (Batalhão de Operações Especiais da PM carioca) se define como “incorruptível”, o que soa como música para o público que, além de assustado com a insegurança, elegeu a corrupção como o principal problema do País. Incorruptível, o Bope, na pessoa do capitão Nascimento, se permite extrapolar suas funções policiais. Prende e tortura em busca de informações, julga e executa as sentenças – em geral, de morte. Livre do pecado principal, a corrupção, pode se permitir a tudo. O Bope seria uma ilha de moralidade cercada de corruptos por todos os lados. É um filme para o momento, portanto, e não apenas porque trata do tráfico de drogas e da violência urbana. Não é à toa, portanto, que tem propiciado esse tipo de reação catártica nos cinemas. Torna-se simpático às pessoas e presta-se como estopim desse tipo de reação.

No entanto, seria preciso analisá-lo mais a fundo. E discutir se, em sua estrutura narrativa, existem espaços abertos para a contradição e a respiração crítica. Por exemplo, o personagem em crise seria um desses pontos de abertura e isso seria o suficiente? Talvez, mas a narrativa em off e o ponto de vista único, constante ao longo do enredo, podem inibir um pouco a liberdade do espectador em construir a própria história em sua cabeça e tirar suas próprias conclusões. O uso de trilha sonora afirmativa também não é de molde a inspirar a reflexão. Em suma, a eficácia do próprio filme, enquanto dispositivo cinematográfico muito bem construído, não beneficia qualquer tipo de distanciamento. Conduz o espectador a uma imersão quase completa em seu universo – o que é uma virtude do cinema como espetáculo, mas ao mesmo tempo uma fragilidade do cinema enquanto crítica, pensamento e reflexão. Tal é o paradoxo. A sua força é, ao mesmo tempo, a sua fraqueza se o analisamos de outro ângulo.

Vale dizer: Tropa de Elite é ótimo filme, bem fotografado, bem montado e bem interpretado. Envolve e impressiona quem o vê, além de ter o mérito de estar levantando uma baita polêmica. Uma pitadinha de Bertolt Brecht em sua receita não lhe faria mal. Pelo contrário.

(Estadão, Caderno 2, 5/10/07)